Lucrecia Dalt - A Danger to Ourselves



7.5

Se você navegar pela discografia da musicista colombiana Lucrecia Dalt, notará uma vasta gama de lançamentos, e se sentirá atraído por pelo menos um que o fisgará e despertará o desejo de ouvir tudo o que ela lançou. A capacidade de Dalt de inspirar essa atração vai muito além da diversidade de temas que aborda, de seus sons, quase sempre voltados para a eletroacústica, ou de sua abordagem de um tipo de experimentalismo que nós, latinos, consideramos mais comum do que estranho.

E é justamente aqui que A Danger to Ourselves encapsula perfeitamente a capacidade distinta da artista de retrabalhar suas raízes, criando algo imageticamente novo e surpreendente – talvez seja o álbum que fará você querer devorar sua discografia. Seu som é mágico, sem fronteiras, brinca com acordes de piano, cordas e demais estruturas que, nas mãos dela, podem ser capazes de gerar texturas instrumentais que entram em um duelo tonal, ora explosivos, ora contidos; tudo parece ir e vir numa penumbra. É meio assustador, mas cativante, no sentido profundo da palavra.

Nesse ponto, a ideia de “dark jazz” e “ambient pop” que algumas pessoas têm usado para classificar o disco, se fundem aos próprios avanços estéticos que Dalt cria, com instrumentos e batidas feitos de forma caseira. É um estilo de produção que serve tanto para destacar o que chama a atenção quanto o que parece estar escondido, é por isso que as melodias ganham um certo volume, que, por mais distantes que sejam da similaridade com obras do mesmo gênero, ainda são acessíveis.

Devido a isto, nada soa como exótico, difuso, ou extremamente fora da caixinha para quem muito compreende a raiz desses sons, que na voz dela se realçam ainda mais. É como se Natalia Lafourcade se encontrasse com Laurie Anderson e surgisse dessa união algo que sequer pudéssemos nomear, tatear. Essa é a densidade de pensamento composicional que Lucrecia alcança em diversos momentos, sempre à espreita de algo que possa vir a ser seu grito, seu chamado; é o caso de “mala sangre”, que carrega todo o tom do disco em termos sonoros e líricos.

É uma concatenação de símbolos que beira o surreal, de fato é. Mas nos sentimos tão comovidos que acreditamos que não passa de algo real, vivenciado e vivenciável – o momento em que seus vocais de fundo parecem uivar como o vento em meio ao farfalhar dos metais e da percussão é o que dita a intenção de Lucrecia Dalt de exibir seu perigoso encantamento. De repente, Buu!
Matheus José

Graduando em Letras, escreve sobre música há uma década. Editor do remixe, também colabora com diferentes publicações sobre cultura e música.

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