ADÉLA - PRIMA



4.7

O álbum de estreia da estrela prodígio ADÉLA habita um limite entre a autoafimação e a demonstração excessiva de sua personalidade forçadamente rebelde. Seu som é um tanto bagunçado, o que reflete bem a ideia de álbum de estreia na música pop, vez que sua desordem remete a The Fame (2009) ou mesmo Born To Die (2012), embora diga menos coisas do que Lady Gaga e Lana Del Rey naquele período.

De alguma forma, nada aqui é robusto o suficiente pra sustentar as ideias de ADÉLA em sua investida badass, pelo contrário: o uso demasiado de estéticas pop mais robustas apontam para uma repetição e falta de frescor que há muito assola o espaço que ela mesma ocupa. Veja bem, ano passado tivemos Addison Rae partindo de uma premissa parecida em termos de tentar conquistar o público através daquilo que eles já estão familiarizados. Deu certo, sobretudo porque Rae não temeu estudar o pop para isso.

ADÉLA, por sua vez, vai por caminhos que nitidamente não têm coisas tão interessantes para lhe dar suporte. Sua referência a Miley Cyrus de “We Can’t Stop” em “Ain't In LA” até que tem bons resultados, essencialmente no refrão pegajoso, mas, em que mundo ter Miley Cyrus como referência no lugar de Madonna é algo bom?

A artista escorrega justamente em suas influências. O electropop de “KGB”, por exemplo, remete ao pop sujo recente de Slayyyter, mas é tão sem vida que nitidamente não passa de algo próximo de uma imitação sem muito valor. A percussão inicial de “Boys” pode até pressupor um trato instrumental mais dinâmico, mas a faixa logo se torna um descarte Y2K criado para acenar a nostalgia pop dos anos 2000 e apenas isso. Novamente, sem muita vida.

O álbum tipicamente mergulha em instantes mais calmos, como na quase balada “Therapy”, em que ADÉLA dá aquela forçada emocional para parecer madura. A música é muito brega, e tem alguns dos dedilhados de piano mais anticlimáticos dos últimos anos. Eu duvidei que ela realmente estava propondo aquilo. Tal nível de autoafirmação como estrela em ascensão claramente carece de mais coisas, seja um tom maior de novidade em suas abordagens, seja uma refrescância na forma de fazê-las, e pra nisso não precisa sair do básico – os exemplos são muitos.

Mas ADÉLA parece querer encontrar o seu ponto de ruptura através de referências que tentam ser pouco óbvias, ou seja, nos surpreender com as escolhas, o que não acontece. Será porque ela realmente não consegue dar conta de fazer o simples parecer incrível em suas mãos? O resultado final é um álbum que poderia usar da sua incongruência, como os citados no início, para mostrar força. Mas não vai além de nada. É o puro suco do que tem de pior no pop atual. ADÉLA pode até não ter entrado no KATSEYE, mas o KATSEYE de alguma forma nunca saiu dela.
Matheus José

Graduando em Letras, escreve sobre música há uma década. Editor do remixe, também colabora com diferentes publicações sobre cultura e música.

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