Jay Mitta - Kazi Kwanza



7.9

Surgido em Dar Es Salaam, Tanzânia, o singeli é um estilo musical de eletrônica dance cujo ritmo, submerso em padrões de percussão, atinge velocidades inimagináveis. É de eletrônica devido ao seu processo de produção, que parte de referências muitas vezes derivativas de tonalidades que percorrem os clubes europeus – mas sua linguagem e seu contexto estão distantes de mirar em qualquer coisa parecida em qualquer lugar do mundo.

Note a faixa de abertura, “'Sawa”, que dá o tom de Kazi Kwanza justamente partindo de uma usualidade de formas puras do singeli, acaba por afiar a lâmina de suas batidas numa lima inspirada no hardstyle. Por isso também o aspecto dance do estilo, por mais que seja descrito dessa forma para nos fazer compreender, com uma similaridade, está longe de corresponder ao dance que temos acesso das tradições formalistas do norte global.

É por isso que este lançamento compreende seu sentido de ser sustentado pelo selo Nyege Nyege Tapes, importante catalisador de toda música que pipoca nas raízes do underground da África Oriental, e muito por isso o retorno de Mitta com este disco, sete anos após sua estréia, trata de especificar para um contexto ainda mais atual onde se encontra o singeli.

Para ele, momentos como “Koma No”, que parecem definir com certa firmeza o ritmo orquestrado por leads não apenas mixados a partir de distorções, mas destruídos propositalmente pela mixagem e pelos padrões percussivos definitivos do singeli, são feitos com a intenção plena de sustentar apenas o som que sai dele por longos minutos. Essa natureza altamente ficcionada em separar um elemento do outro enquanto os mescla para mostrar seus esqueletos é também muito referencial de alguns estilos de EDM ao qual passam longe, em termos de coincidência, de servirem de base para o que Mitta cria aqui.

Ele não está nem aí para onde o seu singeli pode ir, desde que vá acompanhado de tudo que o forma. E o melhor exemplo disso aqui é “Useraaa Beat”, que não teme os exageros ao fazer pequenas pausas tomadas por batidas secas com efeito de lata e bumbos ferozes que, como de praxe, se dão pela velocidade interminável com que tudo se organiza.

Matheus José

Graduando em Letras, escreve sobre música há uma década. Editor do remixe, também colabora com diferentes publicações sobre cultura e música.

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