Anthony Naples - Scanners



7.7

Anthony Naples sempre teve um pé na música eletrônica de dança embalada por tons robustos de deep house e techno – o que distancia sua abordagem da superfície mais convencional desses estilos. Seu último álbum até então, Orbs, de 2023, reuniu parte das raízes do produtor nova-iorquino por esse caminho, mas flertou mais intensamente com a eletrônica experimental, fazendo uso de música ambiente, timbres atmosféricos e do dub techno dos anos 90. Seu retorno com Scanners parece seguir essa mesma direção, desta vez, porém, de forma mais acessível e com um foco nas pistas de dança como nunca antes.

Aqui, seu estilo de techno soa mais contemplativo do que em Orbs, como se observasse de perto e calculasse estrategicamente cada batida ao longo de mais de uma hora de duração. Ele mesmo diz que o álbum é “a versão do som como o ouço”, o que justifica essa sua personalização de tantas coisas que parecem acontecer ao mesmo tempo. “Hi Lo”, por exemplo, começa com um techno ambiente bastante noventista, mas vai ganhando corpo e se aproximando da atualidade do gênero – quando nos damos conta, estamos mais próximos de Skee Mask do que de Aphex Twin e Autechre, estes últimos parecendo ser evocados apenas nos momentos de maior calmaria.

Essa dosagem entre épocas e artistas, substancialmente distintos e que se encontram aqui, é uma das maiores proezas de Naples: caminhar por diferentes direções enquanto permanece onde sempre esteve – é sua forma de atualizar a própria criação, mover as peças mantendo o mesmo jogo.

“Somebody” traz uma bateria frenética e um piano ríspido, com batidas espessas e volumosas que preenchem os ouvidos. Ambos numa produção mais desenvolta e próxima do habitual quando se trata de combinar house com techno sem soar exclusivamente como um ou outro. Nota-se por essas duas faixas que Anthony, embora recorra a uma construção mais dançante que no álbum anterior – mais voltada ao clube e, portanto, mais acessível – não abandona a robustez nem cede à facilidade.

Em “Ampere” está o epicentro dessa proposta. São oito minutos de elementos de dance e eletrônica que puxam sinais da veia experimental do produtor e se convergem sem jamais colidir, enquanto uma melodia vai sendo construída ao fundo com o que parece ser a música ambiente pela qual ele demonstra tanto interesse.

É aqui que, mais uma vez, Naples abraça os anos 1990 sem se prender à nostalgia ou algo semelhante. Ele compreende como poucos aquele período em que a música eletrônica viveu sua maior efervescência técnica e estética, e trabalha isso em seu contexto, mais divertido do que nunca.
Matheus José

Graduando em Letras, escreve sobre música há uma década. Editor do remixe, também colabora com diferentes publicações sobre cultura e música.

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