Edgar & Os Fita - Faz Frio Mas É Verão



8.0

Não é que seja algo escasso, mas, no contexto brasileiro, o rap experimental há muito carece de um apelo genuinamente infamante. Embora o rapper, performer e artista visual paulistano Edgar, ao lado da dupla de produtores cariocas Os Fita (formada por Abel Duarte e Cainã Bomilcar), talvez não chegue a transformar por completo esse cenário, o trabalho deles é, sem dúvida, suficiente para reacender uma centelha muito necessária no momento atual: o impulso de experimentar sem fazer qualquer tipo de concessão, como comunicam.

Faz Frio Mas É Verão parte justamente desse viés, mas não se limita a ele. Mais do que se colocar diante da indiferença, é necessário criar meios de fazer com que ela não se perpetue, mesmo quando a mudança sopra de uma forma ou de outra. E é por isso que o disco reúne um verdadeiro time de colaborações de primeira, com nomes que têm representado, diante de outros estilos e movimentos, a própria mudança na música brasileira.

Os versos de Jup do Bairro em “BONDE MACONHA DINHEIRO”, por exemplo, parecem reunir um tom de pós-ironia que dialoga com o próprio título do álbum e com a arte da capa, mas são tão precisos em suas escolhas líricas, que dão a impressão de reunir, de forma equilibrada, o trabalho desempenhado por Jup tanto em seus projetos solo quanto em parcerias que têm movimentado a cena chamada São Paulo Queer Underground. “gastando grana com botox, comprar robux, no roblox / meter umas réplicas de nike shox, um chá de vinte, tá bom pra nois”, canta ela.

Outra impressão marcante das colaborações está em “CASACÃO E BERMUDINHA”, com Crizin da Z.O. A faixa incorpora uma ruma de elementos dispersos que, juntos, imprimem não apenas o teor de experimentação ditado pelo duo na composição instrumental. A faixa percorre tons de jersey ao mesmo tempo que flerta com segmentos de caixas reminiscentes do grime. O melhor momento está nos instantes finais, em que os fragmentos vocais modificados se condensam com a percussão e geram uma verdadeira culminância de tudo o que foi posto ao longo de sua duração.

Esse é o ponto central da interposição da indiferença, sobretudo pela sequência, “ENGENHEIROS DO APOCALIPSE”, em que as caixas retornam numa velocidade e num tom ainda mais elevados, condensando os versos de Edgar, disparados e descritivos por natureza, mas longe de literalizar o tom distópico que o registro assume ao tratar de dicotomias. “dedico essa a quem tem visão a longo alcance / olheiros, médiuns, monges, snipers e girafas / enquanto a maioria dos rappers confundem o microfone com a garrafa”, ele introduz, fazendo com que consigamos entender a fluidez e a métrica livre com que constrói seus temas.

Beira o absurdo no melhor dos sentidos. É o tipo de coisa que perde o sentido lógico quando vista por uma ótica que não seja a conduzida pelo artista e pelo duo. O álbum segue por esse tipo de contravenção, e eles apostam todas as fichas justamente na novidade que trazem. Edgar fala até no sentido demográfico: “Vamos fazer um bagulho experimental mesmo, um bagulho que nós gosta, que nós tá afim de ouvir, que tá faltando no mercado”. E está certo. O desafio é encontrar algo parecido mesmo nos projetos solo do rapper. Não encontrará. Ele traz tudo aqui, com a caneta afiada numa chaira cataclísmica.
Matheus José

Graduando em Letras, escreve sobre música há uma década. Editor do remixe, também colabora com diferentes publicações sobre cultura e música.

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