As Melhores Músicas de FKA Twigs



Com show marcado no Brasil em dezembro e uma possível continuação da trilogia de álbuns Eusexua, FKA twigs está no período mais produtivo e efervescente de sua carreira. São quatorze anos de trânsito entre gêneros musicais, desde seus primeiros EPs (EP1, EP2) até EUSEXUA: Afterglow, lançamento mais recente. Tahliah é uma artista que não se limita a rótulos ou cede aos desejos de seu público: “Meus fãs pensam que sou uma divindade, então eles não gostam quando coloco rappers em minhas canções”, diz twigs no videoclipe de Childlike Things (2025). Em junho deste ano, lançou “On Your Mind” com a participação do rapper Lil Yachty.

Conhecida pelo perfeccionismo em seus trabalhos, a artista revelou recentemente que CAPRISONGS e Afterglow são projetos não finalizados. Sua decisão de lançá-los parte do seu pico de criatividade, perceptível a partir de 2022, em que a rigidez artística deixou de ditar o cronograma de seus lançamentos. Há quem pense que, por regra, a produção de trabalhos artísticos primorosos leva tempo. twigs nos mostra que é possível haver excelência em um processo produtivo mais rápido, ainda que tenha atingido seu ápice artístico nos primeiros álbuns.

Diante de uma discografia tão interessante e cheia de nuances, realizar a curadoria de melhores músicas não é tarefa fácil. Foram semanas de audição de todos seus projetos, com a criação de uma pré-lista, em que foram adicionadas cerca de 25 canções. Do top 10, algumas canções foram removidas e reinseridas diversas vezes. Sinto muitíssimo se sua canção favorita não está aqui, pois as minhas também não! Dito isso, vamos ao ranking!

#10. “HOW’S THAT”

O projeto EP2 marca a primeira reunião musical entre FKA twigs e Arca. Para quem é familiarizado com as produções da venezuelana, “How’s That” não passa despercebida. A faixa inicia com uma introdução etérea e passa a receber novos instrumentos a partir da primeira vocalização de twigs. A bateria, característica na música, compartilha espaço com sons mecânicos distorcidos. Liricamente, “How’s That” representa a beleza da expressão sexual, algo que twigs faz com maestria desde o início da carreira. Na ponte, a intimidade é expressa com uma timidez proposital: “That feels good in my…. that feels good, so so amazing. I want you in my… I want you on my [...]”. Nas canções subsequentes, a temática sexual e romântica continua, em ambiente cada vez mais sensual.

#9. “ACHE”

Em EP1 (2012), primeiro projeto de sua carreira, FKA twigs cria um ambiente sonoro caracterizado pelo “negative space” (ou “espaço negativo”, em tradução livre). Um dos destaques é “Ache”, faixa eletrônica minimalista em que a voz se destaca como principal instrumento. A entrega de um refrão excelente com poucas palavras é um dom de poucas artistas. Quando o canta pela segunda vez, twigs vai a fundo até o fim da faixa, em um processo onde as palavras mudam de forma, intensidade e frequência até o segundo final. “I-I-I-I ache-ache-ache-ache for you-you-you-you ah-ah-ah-ah” é tudo o que uma intérprete com tal dom precisa para te teletransportar a outra dimensão por mais de 2 minutos. Você vai se desmanchar em desejo!

#8. “CELLOPHANE”

“Cellophane” mostra que a música não é uma área meramente pragmática na vida de FKA twigs. É também o exemplo de que, com o tempo, a carga emocional de certas canções pode aumentar para um artista, mesmo em novas fases de sua jornada pessoal. Durante as últimas performances da música, em shows das turnês Eusexua Tour e Body High, a cantora debulhou em lágrimas. Entre 2014 e 2017, twigs foi par romântico de Robert Pattinson, em um relacionamento marcado pelas reações parassociais de parte do público do ator. twigs foi vítima de constantes ataques racistas. Em resposta, “Cellophane” expõe ao mundo o peso dessa relação: “Eles querem nos ver sozinhos, eles querem nos ver separados”. Na faixa, twigs entrega uma das melhores performances vocais de sua carreira. Ao longo da canção, tristeza, frustração e raiva são sentimentos que andam juntos. A produção é mantida em níveis sutis, como o piano que a acompanha do início ao fim. Definitivamente, experienciar “Cellophane” ao vivo é uma das experiências mais fantásticas que alguém pode ter. Twigs é uma força da natureza e sua arte transcende quaisquer métricas.

#7. “GLASS & PATRON”

No clipe de “Glass & Patron”, FKA twigs materializa sua ideia de dar à luz na pista de dança: “Você pode ficar grávida com a dor e dar luz à criatividade”, declarou a cantora à Complex, em 2015. A faixa, que integra o EP M3LL155X (2015), é uma celebração à cultura ballroom, ao vogue e, principalmente, à energia feminina, um tema que permeia todo o projeto. Muito antes de categorizar sentimentos através de um léxico próprio, como na era EUSEXUA (2025), twigs já comentava sobre a desconexão dos indivíduos em tempos de redes sociais. Em “Glass & Patron”, movida pelo contágio de um som eletrizante, twigs te convida a se desprender da rotina por meio da auto expressão e do contato com o real.

#6. “SAD DAY”

MAGDALENE é o projeto onde há a maior prova da versatilidade de twigs. Em “Sad Day”, a artista demonstra sua capacidade de transformar visões artísticas arriscadas em uma prática impecável. Na produção, estão creditados o DJ americano Skrillex, também presente em “Holy Terrain”, e Benny Blanco (sim, ele mesmo). twigs descreveu o processo colaborativo como desafiador, visto que pretendia manter sua identidade sonora. De Skrillex, nota-se a característica pegada eletrônica, que contrasta com o sentimento apático da letra. “Sad Day” retrata o esforço obsessivo de salvar um relacionamento decadente, em que o humor de twigs depende da reciprocidade de seu amado: “Se você está perdidamente apaixonado por mim, é um ótimo dia com certeza”. A canção foi inspirada em “It’s A Fine Day” da banda inglesa Opus III. Vale a pena conferir a performance de twigs para a Vogue London, em que performa um mashup de ambas as músicas.

#5. “IN TIME”

Em M3LL155X (2015), você encontra as composições mais honestas e sem filtro de FKA twigs. No EP, a cantora expõe o lado obscuro da mente humana, evidente na expressão da possessividade, por exemplo. Em “In Time”, twigs expressa a vontade de ajudar seu parceiro a mudar e tornar-se uma melhor versão de si, de modo que ele retribua e faça o mesmo por ela. A lição é de que “somente você pode fazer isso por si mesma”. A faixa traz uma fusão única de gêneros, com base eletrônica mesclada a elementos do R&B e trip hop. Em termos de produção e entrega vocal, é uma das canções mais arriscadas de twigs. O resultado são os instrumentais épicos e vocais que destacam a versatilidade da vocalista.

#4. “LIGHTS ON”

Mais uma canção com os dedos de Arca, “Lights On” conta com uma produção repleta de camadas, em que instrumentais colidem e maximizam uns aos outros. Assim como em outras faixas do LP1 (2014), a instrumentação clássica (bateria, violão, contrabaixo) compartilha espaço com sons computadorizados mais experimentais (ou são modificados por essas mesmas ferramentas). Na letra, twigs demonstra disposição em permitir que alguém conheça seu interior, um lugar mais “feio” e menos desejável. “Lights On” é sobre despir-se de modo não literal, um tópico também presente na recente “Striptease” (2025). Na rendição final do refrão, os versos “When I trust you when we can do it with the lights on” são acompanhados de um frenesi instrumental. Recomendo a performance ao vivo de “Lights On” para o KEXP (2015), disponível no YouTube.

#3. “EUSEXUA”

Dos adjetivos direcionados à twigs, “pretensiosa” é um dos mais intrigantes. “Eusexua”, faixa título e carro-chefe de seu terceiro álbum, implementa ao léxico da cantora um novo substantivo: Eusexua é um estado de euforia, como quando se beija alguém por horas, de modo a fundir-se com aquela pessoa. Nada mais importa. Em outubro de 2023, quando apresentou a faixa pela primeira vez, no desfile Valentino L’École, já havia indícios de sua próxima sonoridade. Como diz Madonna em “Love Without Words”: chame de trance, chame de techno. As camadas orgânicas da versão inicial, como sons de poeira em queda e barulhos de pedra, foram substituídas por um som industrial à la Koreless, produtor principal de EUSEXUA. Nos primeiros segundos da versão estúdio, batidas de coração são simuladas. Há ainda na faixa a surpresa de Eartheater como vocalista de apoio, também produtora do álbum. O single por si só é uma experiência de eusexua: puro deleite e prazer auditivo. Ironicamente, é uma das faixas mais sóbrias de twigs.

#2. “KICKS”

Se eu pudesse explorar o processo produtivo de uma única música da FKA twigs, certamente seria “Kicks”, a mais interessante de sua carreira em termos técnicos. Quase como em uma experiência de ASMR, os instrumentais crescem e expandem-se entre sussurros distorcidos e vocais espaçados. Liricamente, twigs compartilha o processo de explorar o corpo por meio da masturbação, com o fim de superar a ausência física de quem lhe proporcionava prazer. Dinâmicas de dependência física e emocional são recorrentes nas canções de Tahliah, como na mais recente “Touch A Girl” (2025), em que retrata a simultaneidade da compatibilidade física e do distanciamento emocional em uma relação. O fato de não poupar-se da exposição em nome da arte é algo admirável em seus trabalhos, o que a torna uma joia dentre as singer-songwriters.

#1. “HOME WITH YOU”

Tamanhos de maçãs e cerejas tinham os tumores fibroides que twigs descreve em “Home With You”, terceiro single do álbum MAGDALENE (2019). A canção de forte carga emocional retrata um dos momentos mais difíceis de sua vida, coincidente com seu relacionamento com o ator Robert Pattinson. “Eu nunca vi uma heroína como eu em ficção científica”, exclama twigs sobre a sufocante dependência de outras pessoas, mesmo em um momento de dor e vulnerabilidade. Em um dos versos do refrão, há referência a “Running Up That Hill”, de Kate Bush, cujo canto demonstra o dom de interpretação de twigs. Cada palavra é pronunciada de forma crua, indo de tons agressivos aos mais suaves. A palavra falada e levemente distorcida dos versos e pré-refrão precede uma das performances vocais mais viscerais de sua carreira. É impossível escutar “Home With You” com bons fones e não sentir qualquer estímulo no corpo. Metaforicamente, chega-se aos segundos finais da música encharcado, como quem pegou uma tempestade, mas com a visão de um céu ensolarado no horizonte.

Ouça a playlist:

Francisco Sena

Mestrando em Estudos de Fronteira na Universidade Federal do Amapá e bacharel em Relações Internacionais pela mesma instituição. Tem publicações sobre música pop e alternativa no Medium.

Postagem Anterior Próxima Postagem