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Raras vezes podemos ver a carreira de um artista decair numa velocidade inumana. A ex-dupla misteriosa de produtores surgiu na cena no final da década de 2010 e, de 2019 a 2022, estrelou um auge artístico e popular que os alçou mundo afora. O EP Icons (2022) e a faixa “home”, lançada no mesmo ano, causaram um impacto sem precedentes na comunidade de ouvintes e produtores do SoundCloud, que ficaram bons meses obcecados por eles.Tempos depois, a dupla voltou a chamar atenção, dessa vez com o anúncio e o lançamento do álbum de estreia, Two Shell (2024), que rendeu ainda mais elogios devido à perspectiva descontraída e brincalhona que fazia com que eles nunca fossem encaixados num único certame de opinião.
Não durou muito. A sequência de lançamentos posteriores foi ficando cada vez mais intragável, resultado de crises criativas e distante de despertar a mesma euforia com que antes fabricavam suas melhores músicas, banhadas por um tom lúdico, mas longe de ser inocente; pelo contrário: era muito natural. O resultado está aqui com Infinite Now, o completo oposto de tudo de bom que já fizeram.
Mas Infinite Now não é apenas ruim, sem valor algum, por consolidar uma digressão na maneira com que a dupla criava ou por soar demasiadamente pouco natural em seu som jocoso. O álbum, criado com a ajuda de inteligência artificial, combina o pior aspecto que obras do tipo vêm apresentando: a ausência de alma.
Veja bem. Usar IA está longe de ser um problema. Caribou já o fez, e o resultado foi melhor do que o esperado, basta ouvir Honey (2024) pra saber como e onde esse uso prevaleceu. Você provavelmente não saberá apontar onde, já que soou muito orgânico. “Artificial Angels”, apesar de não ser completamente feita por IA, contou com o uso da ferramenta e é uma das melhores coisas que Grimes lançou desde muito tempo.
O problema aqui, em Infinite Now, é que o uso de IA é perceptível pela própria pobreza que imprime na camada do som. O álbum faz uso de amostras vocais tão irritantes e de instrumentais tão carentes de dimensão que parecem genuinamente vídeos de memes do FlopTok em que usam melodias e vocais de músicas comuns, famosas, mas mudam o teor. A diferença é que as músicas do FlopTok são feitas com a pura intenção de escrachar, aqui, não. Veja o efeito tosco da abertura “The Nightmare”, com repetições exaustivas e planas. Piora ao ver através da perspectiva temática, ainda mais vazia e superficial…
Eles levam a sério a falta de alma, de textura. E, mesmo que não tenham usado IA em absolutamente tudo, não dá pra lutar contra a impressão que o uso oportuno causa. É um verdadeiro estrago, e não importa se vamos para o tópico sobre moralidade, sobre a classificação da arte no resultado da própria IA como arte e afins. É uma bola de neve, e discos como esse suplantam qualquer ideia favorável. Na melhor das hipóteses, vai servir como um exemplo negativo do uso de IA na música eletrônica da década de 2020, ou, melhor, da derrocada de um projeto que foi do absoluto interesse à mais profunda e melequenta merda auditiva.