DJ VINI DA ZO - Sinestesia



7.1

Em letras, a sinestesia é estudada como um tipo de figura de linguagem ligada à semântica, ou seja, faz parte do conjunto de características que adentram o âmbito estilístico, incluído também na literatura, pois lida tanto com a expressão quanto com a expressividade.

É um recurso que auxilia textos – e discursos – a se distanciarem de concepções de lógica discursiva, especialmente porque a sinestesia é um desvio intencional, proposital e arbitrariamente realizado. No anúncio de lançamento de seu álbum no Instagram, que carrega essa palavra em seu título, DJ VINI DA ZO afirma que o cotidiano é sinestésico, atravessado por diversas formas de sentir, pensar, ouvir e saborear.

O mais interessante é que esse conceito, essa concepção oferecida por ele, além de pressupor que a maneira como ouvimos envolve também nossa compreensão individual dos significados da sinestesia, mostra-se plenamente justificada, apropriada e coerente com o que o álbum representa em essência, tanto em som quanto em tema. Isso evidencia, sobretudo, uma meticulosidade astuta, inteligente e criativamente pura dentro do funk, que há muito sofre com certa repetição desproposital de signos e marcas, fruto de um processo que aprofundo melhor na matéria “Por que 2020 é a década dos álbuns de funk?”.

A essência de Sinestesia está na variedade de sons que DJ VINI DA ZO traduz para o funk. É diferente de qualquer outro álbum com proposta semelhante, pois é um diálogo entre ele e o seu entorno. “Trouxe pra esse trabalho sonoridades do meu dia a dia, texturas, cores, ideias, cheiros, gostos, e meu novo álbum é a tentativa de sintetizar e expressar tudo isso”, diz ele.

A primeira coisa a notar é que as diferenças entre a ritmada e o bruxaria são deixadas de lado, já que o DJ explora tanto do funk como um meio de propagação do seu discurso que ambos os estilos se fundem, organicamente, como é o caso de “Procedimento”, com Yuri Redicopa. A faixa é densa, com a acapella em evidência, enquanto a batida permanece em tons calmos, minimalistas e quase ambientais (característica que também se repete em “Sobe no Bode”).

Já a sequência, “Maldade”, com MC W1, reforça a ideia de trazer elementos cotidianos para o som: começa com um cavaquinho acelerado, sobre o qual o MC vai inserindo a letra, até o ritmo se transformar numa espécie de ritmada de barzinho, com timbres graves, tubulares, e cordas que ecoam como se o funk se cruzasse com o pagode, algo próximo das introduções instrumentais de cordofone de nomes como o Grupo Revelação.

Nesta mistura, também há espaço para house (“De Noite de Dia”), psytrance (“Boto Com Força”) e EDM com baixo estrondoso sobre um beat bolha entrelaçado com batidas agressivas (“Cala Boca e Me Da”), trazidos aqui de forma a complementar a força expressiva de VINI DA ZO em de fato se fazer representado em cada música, mesmo que isso implique testar estilos sem deixar de lado o seu modo, o seu meio e a sua forma de produzir funk.

Note que em nenhum momento o produtor propõe que esses gêneros sejam transformados em funk ou vice-versa, e isso diz muito sobre como ele entende seu lugar nesse espaço. Ele utiliza tudo o que pode não apenas para expor sinestesias em sua ampla gama de investidas na experimentação, mas também para avançar numa direção criativa mais assertiva do que em seu disco anterior, O Incrivel Mundo da Ritmada.

Aqui, o ouvinte é parte da narrativa que o DJ constrói: sente sabores, absorve sentimentos. Mesmo na abertura hedonista, com Bia Soull recitando um monólogo da putaria, já se revela como VINI DA ZO busca transpor também uma sinergia com a escuta. E é justamente isso que faz deste um dos trabalhos mais engenhosos do funk em 2025.
Matheus José

Graduando em Letras, escreve sobre música há uma década. Editor do remixe, também colabora com diferentes publicações sobre cultura e música.

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