FRANKIE & Kelman Duran - McArthur



7.0

Quando “GRAYT” começa, os vocais de FRANKIE parecem pulverizar o ar, ao mesmo tempo em que a produção empoeirada de Kelman Duran cria algumas bases melódicas duras – fragmentos vocais que parecem ecoar a quilômetros de distância, uma batida repetitiva de fundo –, que divide espaço com a sutileza vocal e uma díade de cordas, que aprofundam o efeito ambiental da faixa. McArthur, parceria entre os dois, levou tempo para se firmar.


Não necessariamente devido a logística – isso também –, mas pela própria conceituação de ideias e visões, que partem de uma inconformidade com o tempo, sem abstrações, uma vez que o processo de composição compartilhada revelou uma unidade entre o que ambos pretendem aqui, e sem barreiras geográficas. Essa consideração envolve a temática do álbum pelo simples motivo de instigar a recusa, “uma recusa teimosa, senão militante, em chegar à completude, e uma insistência em encontrar potencialidade nos limiares”, é descrito.

Claro que, ao ouvir McArthur, o que se efetiva é o valor estético de profundidade das composições, não a instrumental e lírica, mas a que realoca características firmes dos dois artistas. Em “No Gods”, por exemplo, as cordas retornam, com mais opulência do violino, que em dado momento divide espaço com caixas e baterias, numa espécie de cacofonia improvisada e que gera um efeito que se estende para a sequência, “Icecream”, um interlúdio dub, com vozes abafadas, e uma nota sustentando um tipo de drone que não tem espaço para se desenvolver, e acaba antes de atingir seu ápice climático, um corte brusco, que causa uma sensação de frieza absurda.

Em outros momentos, essa frieza persiste, ainda que de forma mais “confortável”, é o caso da música “BWV 639”. Nessa peça, o piano e o vocal afável de FRANKIE parecem não ser suficientes para nos afastar do que o disco, como um todo, busca expor, como se estivéssemos diante de algo tão solene que se faz necessário regredir a escuta para compreender o que, de certo modo, há em abundância aqui: a beleza do som perturbado, do som tocado e orquestrado com profundidade – às vezes repetitivo – e a beleza dos vocais, que dão a impressão de não serem apenas complementares, mas indissociáveis.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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