Eartheater - Heavenly Body: If I’m The Bottle You’re The Message



6.6

Sondado desde meados de 2023/2024, o novo álbum de Eartheater só foi finalizado e lançado após o fim da gravidez da artista. Por isso, ele reflete muito desse momento como um estado sobre humano de reflexões e esforços materiais acerca do processo tanto de se tornar mãe, quanto de ver sua arte renascer e ganhar um novo significado em sua vida.

Muito por isso o álbum assume ares épicos, diferente, é claro, do sentido épico que nomes como ROSALÍA e RAYE buscaram trazer em seus trabalhos, que ficam aquém de um peso próximo do qual Eartheater explícita aqui. Na faixa de abertura, “Maka Moma”, ela usa uma estrutura inspirada em canções folclóricas tradicionais búlgaras para nos introduzir a sua jornada, que começa com uma travessia. Na letra, ela pede asas a Deus para atravessar o rio Danúbio e encontrar o amor de sua vida, que lhe concederá a maternidade.

É o ponto alto do disco, uma faixa cujos vocais, sem muito esforço, conseguem expressar sentimentos que talvez Eartheater mais buscasse referenciar, de forma indireta, do que atingir diretamente, como faz em outros momentos. A questão é que ela, há muito, demarcou seu espaço como alguém com características vocais tão reconhecíveis que dificilmente consegue trabalhar com algo que não desperte as mesmas impressões. E Heavenly Body: If I’m The Bottle You’re The Message é disco em que mais se tem essa presença vocal, o tom etéreo – de sempre – que conhecemos dela.

Por isso, suas composições, são aqui o ponto central de tudo, mesmo que sejam propositalmente criadas através de uma densidade temática que soa prevista demais. Ela compõe como se de fato estivesse escrevendo uma epopeia, reunindo temas e estruturas que buscam criar narrações que, em grande medida, se desviam do apelo pop de seus álbuns anteriores, como Phoenix: Flames Are Dew Upon My Skin (2020) e Powders (2023). Isso, ao mesmo tempo em que resgata algo que seja suficientemente pop.

É um pouco estranho, e isso diz muito sobre ela. “Wasp In the Fig” é um exemplo. Na faixa, é difícil saber onde exatamente ela quer chegar, e o que substancialmente quer dizer, suas letras se embaralham com metáforas e até mesmo referências bíblicas: “I used to rule Sodom and Gomorrah before you came”, ela canta num tom quase operístico, com alguns arranjos instrumentais de concerto e pequenas inferências eletrônicas, que se tornam mais evidentes na segunda metade do disco. Após isso, o álbum parece cair num loop temático e instrumental, com descrições ainda mais focadas no que vem antes e depois da gravidez, além de referências pouco puristas ao amor.

E, embora ela consiga trazer uma abordagem diferente para um tema comum na música pop, que tanto Madonna quanto Katy Perry já o fizeram, Heavenly Body: If I’m The Bottle You’re The Message parece estacionar nisso, e suas músicas se repetem até não existir mais o que seja capaz de nos impressionar. Esse é um detalhe muito comum nesses discos épicos, expansivos, que têm surgido com certa frequência.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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