
8.0
Existe um fenômeno em discos de música pop muito específico do contexto de pasteurização dos estilos abordados, essencialmente no período pós-anos 90 e com a popularização de formas mais abrangentes de mídia (CD/DVD). Esse fenômeno é bastante comum em projetos focados em ritmos dance ou com ascendência eletrônica, passando até por vertentes club: a quebra de ritmo, a diminuição gradual dele ou mesmo a ruptura brusca. Confessions on a Dance Floor (2005), de Madonna, é um dos discos que fogem desse fenômeno, pois, embora fosse dance-pop em estado bruto, seu ritmo permanecia o mesmo do começo ao fim, independentemente do estilo abordado.Esse fenômeno pode ser descrito, unicamente, pela própria ânsia de grandes nomes da época em querer abordar muita coisa, de idealizar uma diversidade – de querer ser eclético – de estilos, o que fez com que muitos discos dos anos 2000, incluindo os mais fracos de Madonna no período, como Hard Candy (2008), soassem pouco coesos, bagunçados, calculadamente e falsamente heterogêneo (lembre de alguns da segunda metade da década, como The Fame, I AM...SASHA FIERCE, One of the Boys, Circus). Confessions on a Dance Floor, novamente, fugia disso. E, por mais generalista que fosse, sempre foi o disco com o andamento mais perfeito de Madonna.
Esse fenômeno citado rendeu coisas boas, não foi absolutamente ruim, danoso. Assim como a coesão de Madonna em Confessions on a Dance Floor também não foi bem vista por algumas pessoas, que achavam sobretudo apoiado demasiadamente numa visão ultrapassada dos anos 70 e 80, como se ela estivesse sem criatividade, e por isso recorria ao passado. Esse foi, aliás, o argumento central das críticas mistas ao álbum quando lançado.
Enfim, CONFESSIONS II. Vinte anos depois. O disco, por mais que aponte para uma continuação, não apenas se trata de um material novo, como também se distancia e muito do seu antecessor de 2005. As ideias de pista de dança aqui foram atualizadas para ir além do dance-pop típico e predominante do disco anterior. Esse avanço se dá pela forma como Madonna encara este momento em sua carreira. Não há dúvidas de que ela esteja mais consciente, pois sabe que não está em alta, e que garantir um hit hoje em dia depende de fatores maiores do que apenas fazer um álbum dance com ritmo perfeito. É por isso que, agora, ela pode arriscar em sons que não são tão reconhecíveis pela maior parte do seu público.
Veja, por exemplo, a faixa de abertura, “I Feel So Free”, que incorpora o andamento característico do house de Chicago – popularizado pelo icônico pioneiro do gênero, e sampleado aqui, Lil Louis – e se desenvolve a partir de estruturas progressivas. A música aposta em uma estética deep dance (deixando de lado os sintetizadores com sonoridade dos anos 70 e 80 que ela havia explorado em 2005) e evita as estruturas convencionais de refrão. Em vez disso, mescla palavra falada com repetições graduais que acompanham o ritmo, estabelecendo uma conexão entre essa nova fase e a cena de clubes de Nova Iorque que ela conheceu no final dos anos 70. O mesmo vale para a faixa de destaque “One Step Away”, que parte de um arranjo instrumental com ares dos anos 90 – incluindo um pianar suave e um andamento mais lento – aliados a momentos vocais que remetem perfeitamente a Madonna do começo do século.
Todo o trabalho que ela tem com seus vocais aqui, mesmo que ofuscados pelo som em alguns momentos, ou mesmo modificados demais, acaba tendo um saldo extremamente positivo. A ideia de mergulhar numa eletrônica por vezes obscura, está no conjunto da obra que se pode obter: vocais às vezes irreconhecíveis, mas perfeitamente ajustados. Desde Rebel Heart (2015) e depois numa situação ainda pior em Madame X (2019), Madonna vem enfrentando questões em relação ao alcance vocal, muito por conta da sua idade. Mas aqui, assim como Kim Gordon em suas explorações pós-The Collective (2024), Madonna parece finalmente ter encontrado o jeito de cantar e, consequentemente, gravar suas músicas em estúdio sem se importar com o quão alterados seus vocais podem ser. Afinal, é fácil encarar isso como sendo parte da estética de CONFESSIONS II, e por isso funciona.
O exemplo perfeito é o house mais pop – e não o pop mais house – já feito na história recente, “Bring Your Love”, com Sabrina Carpenter. A voz de Madonna parece se esforçar um pouco, e quando o faz, segue por uma linha abafada, como se pronunciasse as palavras na mesma intensidade que as batidas seguem o padrão synthpopiado de 4/4. É excelente, e forma uma sequência incrível com “Danceteria”, cujo refrão explosivo comporta o que Madonna faria no exato período que compreende 2005-2012, pois se fosse menos divertida e pop, caberia tanto no Confessions quanto no MDNA (2012). Há algumas faixas aqui que remetem diretamente ao álbum de 2005, mesmo que contribuam para uma diferença substancial na forma que Madonna encara as pistas de dança hoje. É o caso de “Good For The Soul” e “Fragile”, sendo esta última a irmã gêmea de “Forbidden Love”, com um ritmo contrastando com a letra, uma faixa dotada de elementos esporádicos (aqui as caixas introdutórias) e vocais lindos, que transmitem uma sensação de aperto, de dor, mas ao mesmo tempo de esperança: “I know you're fragile / 'Cause you've been hurt, been let down”, canta.
E, se há, apesar das diferenças, faixas que aproximam essas confissões, há também as que os separam quase em definitivo. “Everything” vai fundo na demonstração psíquica de pistas que acenam para o underground, tem uma virada sensacional e um pós-refrão que surge num drop trance que quebra expectativas do primeiro ao último segundo. Um efeito parecido ocorre em “School”, dessa vez ainda mais estranho. É uma faixa contida, mas que diz mais do que qualquer outra no álbum: fragmentos vocais que crescem num distorcimento único. É robótica, pulsa numa velocidade diferente de tudo.
Este é um ponto crucial e um exemplo perfeito de como Madonna se aprofundou na criação de uma obra que contrasta com o outro Confessions. A sonoridade densa e intrincada de todas as faixas marca um distanciamento do espírito puramente festivo do álbum de 2005. O som agora é mais trance, mais clubber, mais “underground”, sugerindo que os clubes aqui referenciados fazem parte de uma cena autêntica, com pessoas reais e um ecossistema próprio, um ambiente do qual Madonna extrai inspiração de forma eficaz, dada a sua própria passagem nele. Até mesmo as três últimas faixas, que quebram o ritmo estabelecido, provam que Madonna dispensa isso, pois entende que o fenômeno ao qual citei no início, sequer irá atingi-lá hoje. É um trabalho que transborda confiança, um nível de segurança que ela não demonstrava há muito tempo, tornando-o o melhor material que ela lançou em vinte anos, sem exageros. Consequentemente, pelo apelo distinto do primeiro Confessions, sua ida a extremidades – para o público geral, o povão que vai torcer o nariz ao ouvir “Everything” – este deveria se chamar Ray of Light II, e não CONFESSIONS II.