Índio da Cuíca - ZING ZING



8.0

É difícil localizar, no tempo, o que Malandro 5 Estrelas (2021) simbolizou no período em que foi lançado e no que se tornou posteriormente. O álbum trouxe a figura de Índio da Cuíca um reconhecimento que há muito lhe era necessário, não como obrigação, mas como dever: ele é uma das figuras que melhor representam a constante transmutação de forma do samba e, consequentemente, da música brasileira.

Seu cerne temático, criativo e ideológico é a cuíca, um instrumento que jamais havia sido pensado como centro de alguma música fora do samba. Índio mudou isso, ele fez com que a cuíca ganhasse vida própria, e se tornasse parte do que ele é – seu nome social, de registro, é Indio da Cuíca mesmo. Eles são um e o outro, inalienável.

Em ZING ZING, a cuíca é mantida, mas tudo ao redor muda. O disco se expande por entre acordes de violão e guitarra elétrica, é acrescentado a percussão completa do samba e de ritmos musicais com raízes afro. Mas, mais do que isso, há a voz de Índio, em primeiro plano, cantando algumas das composições modernas mais ajeitadas possíveis de espécies de mini enredos postos no swing da cuíca e do samba.

O ritmo está mais acessivel, e o que justifica isso é uma historia em que um gringo, ao visitar os Arcos da Lapa, viu uma pequena imagem do Zé Pilintra e o confundiu com Michael Jackson. A anedota justifica muito do que Índio explora ao longo do álbum, acionando o dispositivo da ancestralidade sem maiores esforços (“Magia Africana no Brasil e seus Mistérios”), vez que sua presença, sua insistência em fazer música, em buscar formas de se diferenciar, o contraste entre ele e sua cena, já demonstra um gesto ancestral que fez da música brasileira o que ela é hoje.

Momentos como “Preto Velho”, em que o ritmo dá uma sossegada, tornam evidentes esses elementos em conjunto: “Preto velho de Aruanda / Ele vem com muita luz / Ele vem trabalhar”, canta ele enquanto acordes esparsos de guitarra e uma percussão densa, mas calma, enchem o escopo da música.

Na abertura, “Cuíca Maluca”, Índio dá o tom do que o álbum poderia melhor adentrar, e rabisca o esqueleto da sua sambologia: é possível imaginar o trabalho de suas mãos ao friccionar a haste de couro com uma agilidade tão precisa que somente os longos minutos de instrumentação conseguem pressupor. O violão tenta seguir sua velocidade, com Gabriel de Aquino tecendo uma teia de ondas que correm atrás da cuíca sem conseguir alcançá-lá.

Na sequência, “Toca lúna / Ô Berimbau”, a cuíca começa espairecer e dar espaço para todo o conjunto instrumental que diversifica a sonoridade do álbum. É como se aderisse a uma formalidade maior, que o distancia do que Malandro 5 Estrelas cunhava: uma simplicidade maior, em dissonância com a expansividade de arranjos e letras atuais. É, apesar de tudo, um movimento importante por acrescentar mais dinamismo e força ao repertório de Índio, que rodou o mundo tocando a cuíca.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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