xavisphone - balança e paixão



7.6

Em janeiro do ano passado, eu estava navegando pelo Soundcloud quando me deparei com uma playlist lançada como um álbum, chamado 1/11. Despretensiosamente, dei play. E acabei fascinado logo nos primeiros segundos. Não levei tempo pra espalhar a novidade entre amigos, e panfletar um DJ muito interessante que tinha descoberto, até porque no perfil dele estavam sendo lançadas dezenas de faixas, numa quantidade chocante pra qualquer um. Comecei esboçar o texto, mas xavisphone seguia quase como um mistério. Foi então que, na pesquisa pra esse mesmo texto, que me dei conta de quem ele era.

Xavier Herrera é um produtor americano, filho de brasileiros. Ênfase no ‘produtor’, pois foi ele quem produziu “34+35”, “westside” e “main thing” da Ariana Grande. Foi outro choque que eu tive, pois além de achar que o Positions é um dos melhores álbuns da música pop nesta década – opinião impopular –, isso me causou sentimentos ambíguos, de curiosidade. Por que diachos um americano estava fazendo funk? E mais: um funk bom? Logo depois, descobri que ele também produziu “A Dona Aranha” da Luísa Sonza. E aí estava: ele é de casa. Não por produzir uma música medíocre de uma artista brasileira medíocre e passar no teste de resistência, mas por fazê-lo como quem aqui faria. Por fim, o 1/11 hitou na minha bolha e agora temos balança e paixão, formalmente um disco de xavisphone. De funk. No funk.

O álbum coleciona algumas das faixas mais empolgantes do produtor nesta seara, mesmo que não seja algo tão extraordinário – não me interpretem mal, mas a grande maioria das coisas aqui rondam o mandelão há anos, sobretudo essa ritmada mais densa em construção rítmica, com abuso de metais como parte da percussão, e que de uns tempos pra cá vem emprestando texturas e tom minimalista do funk de BH, como a faixa “Melodia dos Meno Progreço”, do RD DA DZ7, DJ KLP OFC, MC ZKW e d.silvestre. balança e paixão tem muito disso, ao passo que eleva esse efeito a níveis estratosféricos (“respira”). Noutros momentos, a ritmada parece contornar esse minimalismo de modo a criar uma atmosfera dub que antes só parecia ser possível em terrenos mais avançados do mandelão, como fizeram ano passado alguns DJs que flertaram com a eletrônica formal.

O destaque dessa estética é “sei q tu gosta”, com DJ LEAL ORIGINAL e Mc Vuk Vuk. Os fragmentos vocais da acapella têm, também, alguns espasmos do funk de BH, como se fossem mescladas as letras e a batida, que dão a impressão de serem tiradas do fundo de um galpão abandonado. É pura texturização, pois se falamos de ritmada, o elemento percussivo é essencial para compreender o ponto de flexão entre o ritmo que pode: 1) se tornar mais acessível, e por isso se aproximar de tendências mais mainstream do funk paulista; ou 2) se aprofundar num loop de batidas secas, dub, tubulares. Não tenho dúvidas de que xavisphone, aqui, escolheu o segundo caminho. E por isso balança e paixão tende a tocar em pontos onde muitos DJs da ritmada, como DJ JEEH FDC e o próprio DJ RD DA DZ7, não tenham tocado.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

Postagem Anterior Próxima Postagem