Adame DJ - Músicas para Ouvir no After


6.6

Quando lançou Músicas para ouvir antes do rolê (2024), Adame DJ talvez não fizesse ideia do que iria acontecer posteriormente, especialmente em 2025: uma incidência gigantesca da mistura do funk com a eletronica formal, com DJs e produtores dividindo mandelão com techno, house com ritmada e por aí vai. O DJ há muito vem sendo o melhor exemplo dessa tendência, não porque ele se inseriu nela de repente, mas porque foi um dos responsáveis – talvez – por dar início a ela no sentido de se preocupar com essa mistura e focar nela como meio intransigente da sua linguagem.

Novamente: não é questão de separar funk de uma dita eletrônica, até porque o funk é parte da eletrônica. Mas essa mescla com estilos talvez canônicos seja justamente o ponto de diferença que nomes como Adame assumem. Na música que melhor traduz isso em sua discografia, “Acidddd”, todos os elementos se convergem como verdadeiros desmontes de uma, novamente, dita eletrônica e de um dito funk… É a música mais Adame que ele já fez, justamente por reunir o melhor dos dois mundos sem ser literal, óbvia. Músicas para Ouvir no After, sequência direta do disco de 2024, no entanto, faz justamente o contrário.

É meio que uma questão existencial: o que fazer hoje, após 2025 e tudo o que vimos, todas misturas possíveis de eletrônica formalista com infinitas vertentes do funk? A resposta de Adame convence na maior parte do tempo: um design de som duro, linhas de baixo (“After”) que intensificam sua relação com estilos que fomentam seu impacto na cena, na constante EDMzação do funk. O acerto está justamente nos momentos que viajam pelo passado formador do DJ em seu melhor disco, como os resquícios – e a condensação – do beat serie gold no que se pode chamar de noise-acid-gold de “Monta no Pau”. Diferente de “O Funk Experimental”, cuja literalidade EDM/funk parece não ter muito o que dizer além do que anteriormente fora dito.

“encaixa” é outro destaque. O título brinca com a própria literalidade: é uma faixa tomada por caixas, baterias tão rápidas quanto desreguladas e claps que surgem numa construção inusitada de aspectos permeados por resquícios de jungle e suas escolas postadas no hardcore oldschool, que parece orbitar um éter entre drum and bass e gabber. A mesma ideia parece se repetir, em níveis ainda mais hardcore, em “toma toma”. É de longe a melhor sequência do álbum, pois foge daquilo que Adame já vinha explorando. É o instante em que, finalmente, ele parece querer propor ou dizer algo novo.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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