Clau Aniz - Mácula



7.4

Se não for impossível, talvez seja imprudente tentar capturar exatamente o que o novo álbum de Clau Aniz, Mácula, busca dizer em sua extensa cercadura de composições líricas e instrumentais. O disco sucede Filha de Mil Mulheres (2018), trabalho que fincou o nome de Clau na cena alternativa e experimental como um dos expoentes mais interessantes do final da década de 2010.

Mácula rondou por meses até ser de fato anunciado. Os anos investidos na criação do álbum podem agora ser percebidos em sua diversidade de texturas e elementos, que viajam por diferentes tonalidades, instrumentações e maneiras distintas de agrupar suas temáticas sobre o amor, os mistérios que rondam o imaginário criativo de Clau e os abismos que ela abre sob os pés de quem ouve.

A faixa que abre o disco, “palavra”, deixa claro o tom de dissonância buscado aqui, valorizado como parte da linguagem com que Clau procura efetivar sua ida a diferentes estados de experimentação sonora. A flauta divide espaço com fragmentos vocais, batidas retorcidas e espaçosas, arranhados de cordas e uma mistura entre o sintético e o orgânico que dita os rumos do álbum. É como se, a partir desses elementos, ela criasse uma espécie de glitch que determina, por um lado, o domínio dos elementos eletrônicos.

Na sequência “ressaca”, a estrutura muda, mas o experimentalismo permanece por meio desses elementos de fundo que dão a impressão de repetir a dose de glitch, em contraste com as vozes e com a própria forma como a letra, “amargo em meu rosto / a aspereza da tua presença / não me comove mais / eu matei minhas crenças / pra ser teu cais, mas inundei / chovi”, é cantada, lentamente, sem explosões marcantes, apenas resoluções instrumentais modestas, mas potentes. “nunca mais fui a mesma / te expulsei de mim, afoguei”, encerra.

Noutros momentos, Mácula ocupa-se apenas dos instrumentos (“harsh”), quando não se expande por ecos, minimalismo e meios que beiram a improvisação (“iuá uru”). Em todo o caso, há Clau, degustando o máximo possível de elementos que possam tornar suas faixas não apenas diferentes entre si, mas ricas naquilo que entende como processo de um todo, na explanação de suas sensações míticas, lúdicas e literais. Depois de oito anos, há que se dizer que a espera valeu a pena.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

Postagem Anterior Próxima Postagem