Debit - Potpourri


7.9

Há muito tempo a percussão vem sendo a raiz de algumas das formas mais avançadas de música eletrônica que escorrem da América Latina para o mundo. Tome como exemplo o raptor house, praticamente criado por DJ Babatr e consolidado no ano passado com seu incrível manifesto Root Echoes. Não se identificou? Observe Verraco por uma lente mais formalista do que convencionaram chamar de techno latino em Breathe… Godspeed. Ainda não te convenci? Basta olhar para o funk de DJ Ramon Sucesso em Sexta dos Crias 2.0, com passagens pelo tamborzão clássico. Está tudo ali, bem nítido.

A percussão presente no novo álbum de Debit, Potpourri, também investe em suas raízes latinas como parte de uma metamorfose club que se estende por momentos de techno e acid house. O que serve de base aqui, no entanto, é a guaracha. Não se trata de uma desconfiguração ou de um simples incremento de snares e linhas de baixo estridentes tão intensas quanto prontas para transbordar numa efervescência típica dos moldes do techno latino. Tampouco é uma fusão. O que Debit faz se aproxima mais de uma reimaginação, de uma prodigalidade estética dos estilos que compõem sua formação como produtora.

Por isso, a própria escolha de utilizar características já transformadas da guaracha, pendendo para o tribal guarachelo, faz com que Debit tenha maior liberdade para capturar fragmentos tidos como tradicionais e moldá-los de maneira a criar algo que não apenas soa novo, mas também assustador. Esse apelo rave pesado passa, sobretudo, pelo design de som, que ao mesmo tempo em que soa limpo, é profundamente denso. “Criar experiências estéticas em múltiplas dimensões de escuta continua profundamente inspirador para mim”, comentou a artista em uma publicação no X/Twitter.

Essa proposta se destaca em momentos como “Tuve suerte”, cujos bumbos surgem através de explosões tão violentas que chegam a desnortear quem escuta no volume máximo. A verdade é que Debit entende que o som não precisa ser imediatamente efetivo para provocar esse tipo de experiência, ela se dá justamente do ritmo e da força com que esses elementos são construídos. A sequência inicial formada por “Assimilate”, “2placesatonce” – esta centrada em elementos percussivos mais naturais e responsável por criar uma das atmosferas mais propícias para um dos drops mais fantásticos já feitos – e “Pero like” trabalha um intenso deslocamento de batidas e mesclas entre o natural e o sintético.

O álbum inteiro opera numa chave de intensidade que, mais uma vez, parte da percussão e de ritmos que sofrem um revisionismo dance capaz de ultrapassar suas já evidentes transmutações. Parte da ideia de fazer isso está justamente naquele desejo de propor experiências, e talvez seja por isso que Potpourri desperte uma espécie de temor interno.

No ponto alto do disco, “Encasadelciegoeltuerco”, as batidas parecem fugir das mãos de Debit, desconhecer as redes de transmutação que lhes são impostas, e assustam justamente por isso. Surgem numa frequência, numa força que atinge os ouvidos de um modo que não se parece com nada. É a coisa mais transgressora que você irá ouvir (ouvir mesmo, no sentido físico do ato) e ouvir falar (no sentido de tomar conhecimento) por aí.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

Postagem Anterior Próxima Postagem