
9.0
Quando Róisín Murphy se envolveu numa polêmica ao endossar entidades transfóbicas na discussão sobre o uso de bloqueadores de puberdade por crianças e adolescentes, muito se apontou sobre a razão disso, além de, claramente, a própria transfobia. O questionamento existe, pois as entidades e pessoas que compartilham de teses parecidas chegaram a dizer, repetidas vezes, que os bloqueadores “deformam” crianças, transformam-nas em matérias transmutadas, manipuladas, retiradas do destino natural-humano que lhes teria sido concedido de bom grado.Bom, peço desculpas por começar este texto, que é para celebrar uma das obras mais importantes do século, com uma menção a uma transfóbica e seus pensamentos. Mas o que SOPHIE faz em OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES, seu álbum de estreia lançado em 2018, é justamente encarar, em contraposição, essa fixação pela não-deformidade (“Faceshopping”), pelos padrões materiais (“Immaterial”). E por isso sua revolução na música pop foi além do som, da estética. É também narrativa, e esse pontapé pode ajudar a esclarecer tanto a singularidade quanto a ruptura que esse álbum causa até os dias de hoje.
Como mulher trans, haveria de dizer que este álbum pode, inclusive, refletir não apenas o sentimento – o padrão temático que escorre pela história da música pop ao traduzir angústias e desejos humanos em música –, mas também uma profusão estética do som que propõe um devir musical raramente visto. É a SOPHIE tornando-se o próprio som, virando-o sobre si mesma, colocando nele o seu eu. E ela faz isso através de uma ruma de vozes – é difícil saber quem canta o quê, dada a manipulação extrema desses vocais – e, por isso, além de externar, torna seu eu um estado coletivo, internamente (para quem o fez) e externamente (para quem ouve).
Pouca coisa se aproxima disso na música pop. “Infatuation”, por exemplo, deixa de lado as batidas presentes no restante do álbum para se tornar uma balada emocionante, banhada por uma abordagem sinestésica que confere à paixão, à emoção, uma colocação física, liquefeita, capaz de ser sentida. “Who are you deep down? I wanna know”, é cantado, como se descrevesse a obsessão como ninguém. Obsessão que, em outros planos, joga com a personalidade. Dar-se para alguém. É uma das declarações mais exatas dessa emoção já feitas.
Na sequência, “Not Okay”, um passo além da catarse emocional, testa os limites do design de som de SOPHIE, com estalos cinéticos dados por batidas metálicas, como se o metal dessas mesmas batidas derretesse a cada vez que o som é lançado pelas caixas. Em contraste, “Pretending” reduz ao máximo todas as batidas borbulhantes, troca os sons metálicos convertidos em látex por uma textura guiada por um drone que se ergue lentamente, interrompendo não apenas o ritmo artificial – no melhor dos sentidos – que o álbum vinha assumindo, mas também servindo de descanso para SOPHIE, que, a esta altura, já realizou mais uma de suas várias rupturas.
O ponto central de OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES, “Immaterial”, vem na sequência. No mês do orgulho, eu não consigo pensar em uma faixa mais libertadora do que essa. Aqui, há uma relação direta com a introdução deste texto, pois, se entidades transfóbicas insistem em tratar a transição como uma espécie de deformação da matéria/carne, uma alteração indevida de algo que deveria permanecer fixo, SOPHIE, lá em 2018, respondia propondo que a própria matéria nunca foi suficiente para definir uma pessoa. Quando canta “Immaterial girls, immaterial boys” e afirma poder ser “anything I want”, ela questiona categorias binárias de gênero, desafia sobretudo a crença de que identidade é algo determinado pelo corpo, pelos genes ou por uma narrativa biológica imutável. A transcendência e a liberdade sugeridas pela faixa são a transcendência da materialidade como destino.
Neste ponto, e além dele, SOPHIE, como artista trans, encontra na música pop um espaço para imaginar uma existência que escapa das fronteiras impostas pelo sexo, pela aparência e pela história. Acaba por converter aquilo que seus detratores chamam de “deformação” em um conceito de liberdade que é só seu, cuja potência do som – turbinado por um design de som inconfundível, um espécime eletrônico que suprime a noção convencional de ritmo da música pop, basta observar “Immaterial” como uma releitura de “Material Girl” da Madonna – se tornou uma das forças mais influentes da música pop contemporânea. Desde então, o gênero segue ecoando as transformações que ela imaginou aqui, neste álbum.