Drake - MAID OF HONOUR


7.5

A diferença entre Drake e Kendrick Lamar sempre foi a intenção por trás de suas criações na forma – as rimas, os versos, os temas – do hip hop e como cada um organizou a influência geral do estilo em seus trabalhos. Enquanto Lamar se robustece por meio de criações densas e com pé em aspectos vindos da costa oeste dos Estados Unidos, com estética retrô (o jazz rap), Drake sempre partiu de um apelo essencialmente pop e, quando se levou a sério, fez provavelmente as piores músicas do mundo.

Certo, está meio tarde para focar em Drake vs. Kendrick Lamar, mas MAID OF HONOR é o ultimato de Drake. Lamar pode até ter feito a música que ecoou pelo mundo do rap e que provavelmente nunca será esquecida. Drake, por sua vez, pode remoer o assunto quantas vezes forem necessárias. Não dá para se importar com isso. A descompressão e a leveza com que este álbum é feito nada mais são do que a afirmação de um Drake descompromissado, sem se levar a sério, testando coisas que fazem as espinhas arrepiarem de tão bregas, antes de virarem verdadeiros BOPs. Porque o apelo pop daqui é o guia de suas incursões através de elementos eletrônicos que transformam o hip hop, é o caso do hip house, do miami bass e do jersey club.

São batidas que ganham vida própria (“Outside Tweaking”), com instantes instrumentais e teor minimalista que provocam um tipo de sentimento que não se vê quando Drake força alguma rima sobre o quão fodão ele é. Essa despreocupação atinge níveis estratosféricos em “Cheetah Print”, com Sexyy Red. A faixa tem um trabalho de interpolação que não se via em uma estrela do norte global desde RENAISSANCE (2022), de Beyoncé, e seria exagero dizer isso se não fosse Drake o responsável por um dos melhores momentos desse disco, “HATED”. A percepção dele para batidas rápidas, versos espalhafatosos e uma ideia própria de club é tão incrível que, quando os dedilhados de piano surgem no final da faixa, com seus versos criando uma melodia diretamente de Views (2016), há mais alma ali do que nos três últimos álbuns de Kendrick Lamar.

Depois desse instante, MAID OF HONOUR parece ficar ainda melhor. É como se Drake recriasse esse momento dez vezes, cada faixa com sua própria nuance de ritmo, convidados que ora aceleram (Central Cee em “Which One”), ora diminuem drasticamente (Iconic Savvy em “True Bestie”), com violinos ditando o ritmo e um esforço genuíno para criar o jersey club mais icástico do rap desde “Just Wanna Rock”, de Lil Uzi Vert. E talvez eles consigam.

O fato é que poucas vezes uma estrela do rap se permitiu criar conscientemente e perpetuar suas melhores características, sem amarras, como Drake faz aqui. Talvez por isso, também, a recepção de MAID OF HONOUR entre o público de sites como AOTY e RYM seja uma das mais toscas do mundo, como era de se esperar. Eles precisam ser mais claros ao dizer que hip hop bom é apenas aquele que repete o mesmo efeito de bateria e o mesmo instrumental jazz-sem-ser-boombap-e-sim-jazz-rap. Drake usa elementos parecidos aqui: baterias, piano. Mas faz algo propositalmente bagunçado, longe de aspectos densos de melodia e ritmo, embora igualmente, ou até superiormente, complexo.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

Postagem Anterior Próxima Postagem