
Como preparação para XXXXX, próximo álbum de Arca que chega no dia 31 de julho, reuni as dez melhores músicas da artista. São faixas que desempenharam um papel fundamental na consolidação da identidade musical de Arca e tiveram um impacto significativo na música eletrônica experimental por meio de formas que ela criou e que continuam a influenciar artistas de diversos espaços e cenas. A seleção também reflete temas de importância tanto pessoal quanto mais ampla, apresentando canções que percorrem a identidade trans não binária de Arca que, sem dúvida, é uma das figuras mais importantes da música na atualidade.
Arca canta com uma força descomunal de firmar, sobretudo, sentimentos. Ainda que o álbum todo parta de um pressuposto de mudanças em sua vida – e isso pode ser visto mesmo pelo seu processo de transição – é essa busca por efetivar, formalmente, sua demonstração de humanidade (ou não) que faz com que essa música seja um ponto de colisão extremamente ilimitado de tensão e latência. Dor e desejo.
10. “Piel”
A faixa de abertura do autointitulado Arca, lançado em 2017, é histórica por si só. A voz dela surge embargada por uma calmaria sem igual, guiada por um drone que vai aos poucos se aprofundando e criando uma atmosfera gélida, que se eleva na metade da música, mas nunca atinge um pico de adrenalina, pelo contrário, pois parece se esgueirar por uma ruma de tons que ecoam enquanto Arca canta em estruturas de cinco versos, quase padronizados, meditando uma espécie de canto ritualístico: “Quítame la piel de ayer / Una sombra de destellos en tu pie / Y de una vez de instancia / Tal vez / Sin ti, no sé nada”.9. “KLK” (feat. ROSALÍA)
Desde que o neoperreo se tornou uma quase antítese, em discurso, do reggaeton, e passou a comportar nomes do underground interessados em dominar o gênero, poucos artistas aproximaram tanto as raízes musicais dessa mescla em desenvolvimento quanto Arca. Nessa faixa, em parceria com ROSALÍA, seu som é pertubado por batidas extremamente secas e vocais que desafiam estruturas pop (“Chiquitichichi rom, rom, rom-po-po-pom”). O melhor de tudo, é que ROSALÍA entra na onda, e sua participação torna a simbolizar o espírito livre que a faixa adquire um sentido estético e narrativo. “'Toy viviendo la vida / Ay, como yo quería”.8. “Tiro”
Nas plataformas de streaming, é uma das faixas mais populares de Arca, e a explicação é bem simples: é a música mais acessível dela. “Tiro” é composta por um ritmo que equilibra um tipo de reggaeton estritamente pop na mesma barra que um neoperreo experimental cheio de viradas, no melhor estilo Arca possível. Além disso, traz letras extremamente divertidas que traçam uma espécie de viagem por alguns símbolos políticos e sociais da América Latina. “¿Dónde están los gringo' y lo' wero' pa' que tiren su dinero? / Bo-bomba latina, máquina guajira (Desde) Desde Tucupita (Desde), ha-hasta Yaracuy / Lara, Lara, miran a Miranda / Zulia, Carabobo (Co-co-co), combo Bolívar (Co-co)”, canta ela em um de seus versos mais brilhantes.7. “????? A”
Houve um período na carreira de Arca em que sua busca pelo próprio som, a própria identidade, passou por uma espécie de limbo de excentricidade temática que, mais pra frente, ajudou a definir sua abordagem que, na metade da década de 2010, passou a ser vista como algo profundamente sombrio, perturbador. Uma das faixas que melhor descreve isso é “????? A”, com seus quase dez minutos de duração e uma exploração de formas que não se parece com nada do que ela tenha feito, no passado, no presente e no futuro. A interrogação presente no título, é uma mostra do que a música causa.6. “Mequetrefe”
Embora não seja exatamente a primeira, “Mequetrefe” figura como uma das principais incursões iniciais de Arca naquilo que viria a ser conhecido como reggaeton experimental, uma sonoridade distinta, porém relacionada ao neoperreo, que por natureza implica uma abordagem mais vanguardista do gênero. Aqui, os padrões de bateria sofrem uma enxurrada de interrupções, com pausas rítmicas que transmitem uma sensação crescente de desorientação. O refrão, “Igualito, igualito, igua-, igua-, igualito”, faz com que essas pausas gerem um efeito do tipo glitch, dando ainda mais profundidade ao aspecto excêntrico da faixa.5. “Bruja”
Quando lançou a terceira parte da série de álbuns KiCk, Arca havia construído um mundo diferente do que viria antes ou depois dele. E talvez a faixa que melhor descreva esse ponto de efusão seja “Bruja”. Nela, o som, e a própria ideia de club futurista, ganham forma por meio de alguns dos versos mais livres e conceitualmente desconstrutivos de Arca, emulando um ritual de bruxaria que coloca foco numa narrativa mítica da própria existência da artista e de sua identidade como uma mulher trans não binária, que se apoia na figura de uma bruxa para confrontar não apenas as estruturas patriarcais, mas também destruí-las. Os minutos finais da música literalizam essa destruição, esse ritual. É uma das coisas mais chocantes, em termos de performance, que ela já criou.4. “Mutant”
Os quase oito minutos de “Mutant”, faixa de destaque do segundo álbum de Arca, lançado em 2015, resumem muito bem o estado de suas produções naquele período. A música adentra espaços industriais por meio de uma ambiência sombria, com foco no ruído e em construções rítmicas que soam como verdadeiras improvisações, mas que conseguem extrair, desse tom áspero e barulhento, algum tipo de som, gerado por melodias que, a partir da metade da faixa, tornam-se mais visíveis. É uma verdadeira jornada, pois segue não somente a característica abrasiva de Arca, como também recorre a códigos do ambient e, inclusive, do epic collage, com sobreposições que parecem ganhar vida própria.3. “Desafío”
O disco autointitulado de Arca, lançado em 2017, foi a primeira vez em que ela usou seus vocais em termos criativos mais diretos. Mas, diferente do uso de vocais na música pop ou próximo de uma assimilação contemporânea de música, as intenções de Arca eram estritamente mais profundas. Seu uso passava por questões de identidade, pela fixação estética de sua abordagem eletrônica e futurista. Por isso suas composições também soam difusas, diferentes. “Desafío” é a melhor música desse contexto todo. É uma faixa que declama uma sensibilidade única, de uma artista igualmente única. A esta altura de sua carreira, Arca havia produzido para Kanye West, FKA twigs e Björk. Não é estranho, portanto, que seu autointitulado viesse também com a intenção de ser um firmamento de sua linguagem, seu método e suas marcas.Tócame de primera vez
Mátame una y otra vez
Ámame y átame y dególlame
Búscame y penétrame y devórame
Arca canta com uma força descomunal de firmar, sobretudo, sentimentos. Ainda que o álbum todo parta de um pressuposto de mudanças em sua vida – e isso pode ser visto mesmo pelo seu processo de transição – é essa busca por efetivar, formalmente, sua demonstração de humanidade (ou não) que faz com que essa música seja um ponto de colisão extremamente ilimitado de tensão e latência. Dor e desejo.
2. “Think Of” (feat. Mica Levi & Massacooramaan)
Quando lançou o seu melhor disco, a mixtape Entrañas (2016), Arca havia acabado de criar uma das experiências mais influentes da eletrônica experimental. No centro da obra está “Think Of”, com Mica Levi & Massacooramaan, uma das faixas mais assustadoras e complexas que a venezuelana havia criado. Sua estrutura, que mescla fragmentos vocais retirados de arquivos de mídia selvagens e batidas que se sobrepõem em completa ebulição, aproxima algumas das técnicas que, essencialmente a partir da metade da década de 2010, haveriam de tomar proporções artísticas quase desconhecidas, como os mashups baseados no deconstructed club e, aqui, especialmente, num flerte maior com a desconstrução pop por meio de bootlegs, passando pela remodelação de sons numa perspectiva que ajudou a definir o epic collage, ainda mais presente na eletrônica de vanguarda hoje.1. “@@@@@”
Em toda a estranheza – do latim extraneus, extrâneo, estrangeiro, remetendo a outro lugar, ao que não nos é familiar – de Arca, a faixa “@@@@@”, de 2020, talvez seja a que mais gerou um impacto imediato, direto, no (ou em qualquer) ouvinte. A música tem sessenta e dois minutos de duração e esteticamente avança por tudo o que há de mais Arca no mundo: são batidas que passam por um design sintético sem deixar de ser percussivas o suficiente e que se chocam com frieza, ruídos e vocais distorcidos, criando texturas para compor a ideia de soar como uma transmissão de rádio futurista que apenas seus seguidores conseguiriam codificar. De certa forma, a faixa, assim como outras desta lista, não consegue captar com precisão nenhuma ou todas as ideias de Arca, seja na narrativa conceitual da Diva Experimental ou na sonoridade em si, vez que possui uma vastidão quase intangível de traços que compõem o universo dela que vai além de qualquer coisa que ela outrora já tivesse feito, e o formato – ainda muito questionado, visto que não há um consenso exato do que se trata (é um single, um DJ set utópico?) – contribui para a expansão irrefreável de sua obra até o presente momento. É como se ela estivesse emoldurando o futuro e o passado por meio de uma obra em que a maior propriedade está em seus sentidos e expressões, que ganham forma ao longo de sua extensa duração. É, sem dúvidas, uma das produções mais instigantes dos últimos tempos.Ouça a playlist:
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