
5.1
Em meados de 2024, o DJ Arana fez uma série de stories desabafando sobre a dificuldade de emplacar novos virais. Depois de dominar o funk paulista entre 2022 e 2023, com hits que ajudaram a definir os rumos do mandelão no pós-pandemia, ele passou a enfrentar um problema que, em alguma medida, diz respeito ao próprio funcionamento do gênero. Um dos pontos centrais do seu desabafo tratava da dificuldade em contatar MCs e conseguir usar acapellas livremente como fazia antes, algo legítimo num estilo que, por seu caráter desregrado, quase anárquico em termos de direitos autorais, sempre se aproximou da roubofonia. O funk sempre mostrou que criar, produzir e compor também é tirar, recolocar e recompor.Desde então, seus grandes sucessos passaram a rarear. “Senta Olhando Pra Mim”, do ano passado, foi seu último grande hit popular, presente nos bailes de rua, comunidades e sons automotivos de todo o estado de São Paulo. Devido a isso, ele começou a demonstrar um crescente desencanto com o funk, e, consequentemente, com o mandelão. Chegou a culpar o TikTok e o brazilian phonk, ironicamente a mesma plataforma que ajudou a impulsionar sua carreira por meio da “rabiscada do DJ Arana” e de sua forte presença entre os jovens e em festas universitárias. Mas não dá pra dizer que ele não mudou o funk. Seu melhor álbum, Carreira Solo, é justamente um clássico do gênero. Um resumo de tudo o que o mandelão se tornou, caminhou ao lado das formalizações do estilo, como a expansão do bruxaria.
Depois desse desabafo, vieram outros. Outros e outros. Alguns causavam preocupação, sobretudo por uma questão psicológica, com ele claramente alterado comentando suas frustrações. Depois, ele aparecia dizendo que estava passando no psicólogo e que estava tudo bem. Suas colocações sobre a fama nunca atingiram apenas suas posturas errôneas, suas opiniões polêmicas e que ele, nitidamente, nem sabia o que estava falando (a crítica ao TikTok), mas também questões mais profundas, como quando foi LGBTfóbico ou sofreu acusações de transfobia.
Enfim, era mais um jovem brasileiro, da favela, espelhando comportamentos de um país que lhe impõe exatamente esses comportamentos errôneos durante a ascensão social. Ele nunca se desculpou por nada, mesmo reconhecendo que, quando mais novo (ele nem era maior de idade quando fez essas coisas), falava muita besteira.
Tudo isso fez com que ele, cada vez mais, evitasse o funk. E, agora, parece que finalmente conseguiu. Seu novo álbum, MOBILE, não se trata apenas de uma mistura de mandelão com vertentes de música eletrônica de rave, como o psytrance, mas sim de uma ida dele a um novo território, que finalmente irá abraçá-lo e lhe conceder tudo o que o funk deu, mas tirou. Será mesmo? MOBILE parte de uma visão um tanto idealizada dessa eletrônica. Uma visão que se preocupa demais com coisas que, por vezes, sequer fazem parte genuinamente deste cenário (o lançamento de um álbum aos moldes dele), mas que Arana ignora porque, para ele, é tudo ou nada.
Pouco antes do álbum ser lançado, ele gravou um vídeo e postou no seu feed. Sim, era mais um de seus vários desabafos, dessa vez mais complexo em sua abordagem sobre o fato de crescer e amadurecer artisticamente. Pra um bom entendedor, meia palavra basta. O vídeo é um amortecedor, um colchão colocado embaixo de um penhasco para amortecer a queda brusca e radical. Arana começou a capinar o lote. Disse que jamais largaria o funk e que esse novo projeto era apenas uma de suas várias investidas em estilos diferentes. Em tentar coisas novas.
Ele tenta, mas nada presente aqui é próximo da novidade que trouxe em M.B.D.T., por exemplo, disco que entoou a secura do automotivo, com beats extremamente minimalistas e uma espécie de atmosfera dub que era tão próxima da eletrônica (a boa, o EDM) quanto do que ele faz agora em MOBILE, vendido como o seu disco "mais eletrônico". Mesmo para o funk, a novidade é boba. Piora ao saber que grande parte do público que gostou deste álbum gostou porque justamente vê o funk como não sendo parte integrante da eletrônica, e essa visão parece ser promovida pelo DJ por pura ignorância. Suas referências ao mandelão aqui são algumas acapellas. É uma estrutura semelhante ao que os DJs começaram a fazer no ano passado ao misturar funk com o EDM, a eletrônica formalista, como techno, house e outros estilos.
Em “Mulher Violino”, há os elementos de M.B.D.T., com a batida do funk sendo levantada por batidas minimalistas e extremamente repetitivas. O que muda é o ritmo, dominado por um four-on-the-floor hipnótico, e apenas isso. “1998” soa confusa, com baterias rápidas e uma estrutura percussiva que soa intermediária ao trance dos anos 2000. Em “Última Volta”, as caixas se aceleram mais do que o normal, pressupondo um drum’n’bass atmosférico e imerso justamente em estruturas fixas da incisão que remete à tensão das raves. A ideia desta faixa é expandida em “Noite Em Mônaco”, que é mais assertiva por se deixar fluir pelo instrumental, dessa vez mais lento e ainda mais atmosférico.
“Bala de Abacaxi” é a maior aposta de Arana nessa convergência rave. E até que funciona, principalmente na forma como ele enxerga a fritação – é a mesma, novamente, que ele abordou no automotivo e no bruxaria – como sendo o abuso de alguma nota ou barulho sustentado até não querer mais. Outro acerto é “Mulher Violino”, mas é mais pela acapella e pelo estilo que remetem às suas produções antigas… pela milésima vez… minimalistas, como fez em EU SOU O MAGO: A ORIGEM (2022), onde já flertava com a eletrônica rave.
É estranho, portanto, que ele encha a boca para dizer que este álbum se trata de eletrônico. Falta de consciência? Não sei. Vingança contra a cena do funk, que basicamente o detesta? Também não sei. A questão é que MOBILE é ruim justamente por espelhar uma espécie de mania dele, por conter – e descaradamente fingir que nunca teve – suas maiores, e melhores, marcas.
Espero que, se a carapuça do “eletrônico” que ele veste agora servir, ao menos consiga se estabelecer, deixar de ser movido pela síndrome de perseguição que o aflige. Ele começou muito novo e ainda é muito novo. Fez muitas coisas interessantes musicalmente, mas muita coisa ruim como pessoa, personalidade. Acontece com os melhores artistas. Mas será que o pessoal dessa “eletrônica” está pronto para recebê-lo?
Hoje vi um tweet em resposta à ida dele a este espaço dizendo o seguinte: “Galera do funk, fique no funk obrigado!”. No TikTok, num vídeo sobre ele estar fazendo música eletrônica, outro comentário: “Pode até ser considerado música eletrônica (o funk), mas nunca será como a música eletrônica tradicional que curtimos”. O que seria “música eletrônica tradicional”? Como essas pessoas enxergam a música eletrônica? É sintomático. As raves, que há muito são conhecidas como espaços onde pessoas brancas podem se drogar e ouvir música alta livremente sem se preocupar em serem brutalmente assassinados pela polícia, nunca irão aceitar o funk ou um funkeiro vindo do contexto de onde ele vem, por mais abertas que possam estar ao seu novo álbum. Essas pessoas que ouvem psytrance acham que são superiores. É até engraçado. E o pior: MOBILE, de alguma forma, também reflete isso.