
7.5
O que tem de melhor em Dissidente, novo EP de Agazero, é o que, para quem ouviu o seu set na Rebu Digital, pode soar como, paradoxalmente, um estado de consciência ou uma noção própria de como o som, pela viagem que faz de sair dos seus canais mecânicos, de onda sonora, e entrar nos nossos canais, físicos, corpóreos (o ouvido), acaba por atingir uma uma percepção que persegue a si mesmo, o design desse som, a estética que o rodeia, para ser parte de um intercâmbio da linguagem que revela justamente esse paradoxo entre o que ele faz e como recebemos, como sentimos.Quando, na faixa que encerra o disco, parceria com SEXCORP., ocorre a batida na porta – que pode pressupor para alguns uma ideia de música 4D –, eu apenas olhei pro lado, na direção da porta do meu quarto. Levei uns segundos pra entender o que estava acontecendo. Essa violação de dimensões trata essencialmente dessa pegada do sentir, não numa razão formalista da eletrônica experimental de percorrer a sinestesia – outro tipo de violação –, mas da maneira como se constrói uma ambiência para que momentos como esse soem, de certa forma, naturais.
Esteticamente, a violência com que as batidas se aglutinam em contraposição aos fragmentos vocais numa prensagem quase bootleg, é o elemento mais usado ao longo de Dissidente para arrumar meios de nos fazer sentir alguma coisa, não na ordem de Agazero fazê-lo obrigatoriamente, e até forçadamente, mas de propor. Na parceria com KARAN! e Yandrel, o design é ainda mais atormentador, vez que pega a raiz do dubstep – que, depois de muito tempo preso na sua nação fundadora, agora ganha o mundo, com nomes como Pugilist expandindo microcenas na Grande Ilha, ou o tormento (no melhor dos sentidos) que Skrillex casou por aqui em sua mais recente passagem – para condensá-lo ao funk, como se remontasse seus signos para que o sentir possa ser, em meio a tudo isso, passível de sentimento. Familiaridade.
É através dessas colocações, e da robustez de instantes como “Craves Vain Attention”, que Dissidente realoca o paradoxo de Agazero com o produzir e sentir – ele também se insere nessa lógica de ouvinte – para um patamar de pura reciprocidade. O que surpreende aqui, por isso, não é o meio que o faz para nos fisgar com sua visão singular, e sim a ênfase que dá no processo, na manufatura, disso tudo. O que, no momento, é melhor do que qualquer literalização da transferência de atores que a sua música tenha de receber ou despachar. Neste sentido, sua criação dialoga muito bem com a faixa que recebe Iguana. Existe uma aproximação de ambos como criadores mesmo, um vazio que não só passa pelas texturas cortantes da composição irreconhecível deles – facadas mesmo – e sim pela busca em ocupar esse vazio, feito com baixos estilo descarga elétrica. O vazio se preenche, sim, mas o ambiente ainda parece profundo e inexplorado. Só nos resta sentir, tentar tatear isso.