
7.5
Ao lançar ESTILO DURO (2024), um dos 100 melhores discos de música eletrônica da década de 2020 até agora, talvez DJ DENGUE não tenha percebido – ou, se percebeu, isso não era seu foco principal – que estava integrando uma vertente de vanguarda da música eletrônica (tão específica quanto formulaica) a uma realidade tão distintamente brasileira que ela parecia existir apenas como uma forma de música eletrônica ufanista, muito embora o álbum tenha deixado sua marca em diversos gêneros surgidos após a década de 1990, como o gabber.Essa eletrônica de vanguarda brasileira vem, aos poucos, alterando sua forma. Deixou, por um breve período de tempo, de ser sobre a mescla da eletrônica formal com o funk, elemento central dessa característica estritamente nossa, vez que o funk também é um estilo de eletrônica. Essa diluição ocorre sobretudo pela própria repetição que algumas vertentes do mandelão, como o bruxaria, vem provocando ao se afundarem cada vez mais na busca por uma proximidade de dependência de festas e eventos que, a cada dia, se afastam mais das suas raízes.
Mas DJ DENGUE nunca disse ser parte disso, sequer firmou sua criação em torno desse espaço. Por isso, pode fluir livremente por tendências que ele mesmo cria, por estéticas que deseja abordar sem amarras, e focar em ideias de som, ritmo e composição de música eletrônica que não se vê por aí, nessa vanguarda que agora ninguém sabe onde exatamente está. Por isso, dnb funciona: é um projeto que corre solto, que independe de um contexto que não a inquietação de seu realizador, e isso basta.
O disco é quase o oposto do projeto anterior: foca em atmosferas e ambiencias que instigam a calmaria de ritmos postos no breakcore. Sua maior propriedade está no drum and bass, que dá a impressão de assumir uma linguagem de apoio ao cotidiano que leva tempo pra começar, e quando o faz, registra o que o gênero tem de melhor, com seu aspecto noturno, sua tematização posta nos grandes centros urbanos. É o caso das duas faixas que abrem o disco, “Terceiro Espaço” e “Barcas”. A sequência, “TRJG”, ainda trata de ambiências, batidas rápidas e de partidas; insere o funk no meio de tudo isso.
Mas é só em “Cansada - Remix”, com vocais de carol vieira, que o drum & bass assume a dianteira do que DJ DENGUE busca imprimir neste lançamento um tanto peculiar. E o faz com certo formalismo, tratando do aparato vocal como base do que o gênero ousou fazer em grande parte dos lançamentos nos anos 2000, quando atingiu um midstream dada a tendência que escorria após os anos 90 e sua criação fincada na eletrônica instrumental.
Outra reconstrução de ideal de eletrônica como fundamentação prática de dnb está em “Fim da linha”, parceria com Crizin da Z.O.. A faixa evoca as raízes do dub, posta na Jamaica e em sua mutação criativa derivada do reggae. Para quem desconhece a origem da estrutura que deu vida ao dub techno e outros estilos, a faixa pode até soar desconexa, mas a calma com que ela se constrói rapidamente a conecta com o restante do disco, que se encerra com “Eterna Rotina”.
A música, assim como todas, descarta a pureza instrumental de se parecer de cabo a rabo com seu estilo de origem. Se torna, assim como tudo aqui, uma reimaginação temperamental, um jungle emotivo e guiado por dedilhados doces e chicotadas leves. Além de gravações de campo, fragmentos vocais e uma mensagem de aconchego que finaliza dnb como começou. É um disco que subverte as intenções que conhecemos de DJ DENGUE. Um exercício criativo sem esforço; um estudo de caso da sua paixão pela música eletrônica e um modesto parecer sobre pertencimento.