Os melhores discos de música eletrônica da década de 2020 até agora (2020-2025)



Os 100 colocados na lista de estreia do site remixe!

A década de 2020 tem sido um importante terreno de experimentações na música eletrônica. A pandemia e o confinamento fizeram com que centenas de jovens aprendessem a usar softwares de produção e começassem a lançar suas próprias músicas. Daí surgiram nomes importantes do funk, por exemplo. Mas, à medida que os anos passaram – e agora que atingimos a metade da década –, o sentido DIY parece ter recebido novos fundamentos, pois, além dos novatos, diversos veteranos também passaram a focar em produções caseiras.

Mais do que isso, muitos artistas e produtores passaram a explorar novos estilos, retornar a eles depois de muito tempo ou mudar abruptamente suas abordagens em diferentes gêneros. Esse efeito se traduz muito bem nas escolhas presentes aqui, nesta lista que inaugura este site, cujo foco será justamente esse tipo de produção.

Esclarecimento: a lista foca em discos de música eletrônica que, em sua maioria, desviam do apelo pop e mesclam influências da vanguarda eletrônica. Por isso, nomes como Charli xcx, PinkPantheress e Kelela não marcam presença. Além disso, estão aqui alguns discos de funk que representam, de certa forma, a chamada música eletrônica periférica.




100. Yushh: Look Mum No Hands (2023)





Movido por batidas quase simétricas que se dividem em 160, 130 e 95 bpm, o EP de estreia de Yushh é uma representação fiel de suas vontades, principalmente o trabalho que tem de criar novos vínculos ao encarar um novo espaço, neste caso, sua ida ao selo Wisdom Teeth com uma bagagem um tanto atmosférica voltada para tendências de música eletrônica dos anos 90, resultado de um apelo mais leve de estilos que vão do footwork, passam pelo jungle e reafirmam suas ideias ambientais no techno.



99. Sam Link: The Breath (2022)





Quando começa, The Breath parece querer propositalmente despedaçar seu som em um milhão de fragmentos. A impressão que Sam Link causa ao fazer do jungle um ponto de partida próximo de uma ruptura com aspectos estéticos vindos do breakbeat e do footwork com aspirações no UK garage, é quase exata, e isso chama atenção no decorrer de todas as faixas.



98. ICQ BABY: mini makina handbang v1 (2023)






Estritamente divertido, mini makina handbang v1 só faz sentido para quem vê a música eletrônica como uma possibilidade de expansão de domínio musical, e não apenas como gênero oriundo de exposições sintéticas. Por isso que em determinados momentos, o reconhecimento e a afinidade que temos com a obra, principalmente por conta de algumas peças já conhecidas pela cultura de mídia online, soa tão incrivelmente próximo – e palatável – que fica impossível não se ver contagiado com tamanha proporção de divertimento. É lúdico e, sobretudo, degustativo.



97. Roza Terenzi & D. Tiffany: Edge of Innocence (2022)






Há uma certa literalidade em Edge of Innocence, álbum de estreia de D. Tiffany e Roza Terenzi. Na faixa que abre o disco, “Spiritual Delusion”, o tom meditativo de batidas atmosféricas e a sensação de imprimir alguma estrutura new wave (e bem espiritualista) acaba combinando perfeitamente com o ritmo downtempo que se segue a partir deste ponto. É, no entanto, uma literalidade benéfica no sentido de guiar ouvinte por territórios que talvez ele não esteja acostumado, e que tem a chance de conhecê-los aqui da melhor forma.



96. Chisari: Madness (2023)





A velocidade com que as batidas surgem em Madness, EP do DJ e produtor brasileiro Chisari, é chocante por diferentes motivos. O primeiro, é bem óbvio: embora se utilize de espaços fincados no techno, com vocais no decorrer da faixa, as batidas parecem se afastar de um tom meramente sintético. Ou seja, envolve um trabalho de percussão que soa tão natural quanto bem ajustado ao próprio techno. O segundo, e não menos importante, é a forma como Chisari busca transpor essas batidas a fim de criar um som que não precise de descrições maiores. São instantes cujo ritmo ora é abafado, ora salta aos ouvidos numa altura – com gritos – consideravelmente alta.



95. B.AI: Let It Be (2023)




O efeito rarefeito de bateria que se concretiza nos minutos iniciais de Let It Be podem dizer muita coisa sobre o processo de criação de B.AI e dar razão para sua ida em estruturas mistas de techno-house-electro, mas sobretudo expõe o quão esses efeitos podem ir além de serem isso mesmo, efeitos. É como se aqui fossem algo além, exercendo um peso semelhante e ao mesmo tempo diferente de um modulador ou sintetizador comum numa música pop recheada de synths e funks. Neste caso, o produto gerado não passa de uma formatação tech-house-cheia-de-brilho.



94. DJ Narciso: Capítulo Experimental (2025)






A pista de dança sempre foi, apesar de suas origens diversas, o verdadeiro local e propagação da música eletrônica. O DJ Narciso, cujo trabalho vanguardista criou com excelência um som distinto, com identidade própria e linguagem musical que se afasta dos padrões hegemônicos ocidentais, parece brincar com a noção de uma música eletrônica mais acessível. Seu projeto mais dançante, que melhor se conecta com a pista, é também o seu trabalho mais distante da fácil absorção do público, mais inventivo e que se arrisca sem olhar para o retrovisor.



93. SUCHI: Birdy Bell (2023)





SUCHI é uma excelente contadora de histórias, embora Birdy Bell desafie as normas ao fazê-lo sem depender de aspectos narrativos mediados por vocais, ou seja, ela não precisa realmente cantar para dizer que seu trabalho atravessa barreiras locais – físicas ou não – com a intenção de alcançar um status de linearidade. Aqui notamos influências regionais de cada lugar por onde SUCHI passou, como Oslo, Londres, Deli, Nova Iorque e, atualmente, Manchester. E, apesar de curto, Birdy Bell é simbolicamente intenso e pronto para dilacerar qualquer um nas pistas de dança, o que conclui-se como música eletrônica que acerta ao se manter na média do gênero; nem muito superficial e nem muito profunda.



92. Raja Kirik: Phantasmagoria of Jathilan (2023)






As barreiras que Phantasmagoria of Jathilan atravessa entre os mundos da representação histórica e uma das tradições mais conhecidas do folclore indonésio – a dança do cavalo Jathilan – podem ser percebidas nos momentos em que parece criar, reconstruir, algo inteiramente novo no prisma da produção e composição musical contemporânea, adaptando as canções e danças de Silir Wangi e Ari Dwianto. Há uma névoa sobre sua estrutura industrial, que pende para o techno, ao mesmo tempo que utiliza sons instrumentais orgânicos. Trata-se de uma coleção documental extremamente rica de música eletrônica deste século.



91. Roompunx: CASH GRAB (2023)



Embora inspirado por impressões mais nostálgicas do breakbeat, essencialmente na escolha de fragmentos vocais que parecem vir diretamente de um som old-school e da reprodução dos anos 90/2000, CASH GRAB ainda consegue soar estritamente atual, fato evidente nas combinações da faixa "H8RS ON THE SIDE", na qual o brasileiro ROOMPUNX explora uma variedade tímbrica que vai do house tradicional ao techno, sem perder o equilíbrio em nenhum dos dois.



90. feeo: Goodness (2025)



Em Goodness, álbum em que Theodora Laird explora sua estreia como feeo, a amplitude espacial – não necessariamente do tipo encontrado em estilos como o space ambient – ​​chama a atenção por meio de sua composição atmosférica, que se divide entre momentos meditativos e instantes que evocam uma sensação de profundidade voraz, como em "The Mountain". O disco encontra força neste tipo de colocação estética, e o faz através de drones fixados em expandir pouco a pouco sua expansividade.



89. Nazar: Demilitarize (2025)



Em Demilitarize, Nazar cria canaletas que guiam suas ideias em diferentes direções. O kuduro, que representa suas raízes musicais e culturais, é atravessado por fragmentos percussivos como baterias sintéticas e moduladores que geram efeitos de ondas, que ora amplificam, ora diminuem a intensidade dos elementos por ele explorados e que estão próximos de uma armação que não chega a ser techno, mas é tão viva quanto – uma combinação perfeita com os vocais do artista.



88. gum.mp3: Black Life, Red Planet (2024)



Na faixa de destaque de Black Life, Red Planet, “Deimos”, encontramos uma mistura de batidas de funk mandelão, acordes de guitarra latina e linhas de baixo envoltas em uma batida sincopada que pende para uma espécie de jungle-techno. Tudo misturado. Provavelmente é algo que nem você nem eu jamais ouvimos antes, e é exatamente aí que gum.mp3 deixa sua linguagem evidente, misturando o que é e o que não é convencionalmente aceitável em uma única e distinta forma de música eletrônica pulsante e jazzística.



87. Space Afrika: Honest Labour (2021)



Quando começou, o projeto Space Afrika reuniu um número considerável de explorações prolíficas no dub techno. É evidente que suas incursões nesse território, que se tornou uma das escolas mais importantes da música eletrônica, os marcaram a tal ponto que, em Honest Labour, mesmo optando por mergulhar no aspecto mais ambient e minimalism do que faziam antes, essa influência ainda persiste, de forma menos direta, claro, mas com acenos tão ríspidos quanto a maneira como moldam a sonoridade do álbum, como na fantástica faixa de abertura “yyyyyy2222”.



86. DJ Elmoe: Battle Zone (2025)



Footwork nem sempre se resume à velocidade dos cortes em loops de bateria e samples fragmentados, embora Battle Zone, de DJ Elmoe, seja precisamente sobre isso. Mas, acima de tudo, é uma reconfiguração dessas marcas: tudo aqui flui de forma mais lenta, serena e gelada.



85. aya: hexed! (2025)



hexed!, de aya, se comporta como uma versão hardcore de todos os estilos aos quais a artista se aproxima aqui. É o hardcore do deconstructed club, do UK bass, do dark ambient, e, em certos momentos, é simplesmente o hardcore do hardcore. Ainda assim, não há “hardcores” suficientes que deem conta de descrever o som apresentado: há batidas de club, ritmos diluídos numa confusão cuidadosamente arquitetada para soar sem rumo, versos e palavras faladas que dão força e corpo ao que se expõe. São letras, sons e estruturas hardcore, em essência e desordem.



84. Techin: All Night (2023)



O EP de estreia de Techin, DJ e produtor baiano, no renomado selo espanhol La Pera, brinca na linha tênue entre o reconhecível – e acessível – e o que pode ser tido como denso, neste caso, suas investidas no tech house com um toque de minimal. As duas faixas condensam muito bem este lado reconhecível, com vocais que avançam pelo histórico de composição do house, enquanto batidas vibrantes dão contorno a repetições e melodias que aceleram e desaceleram ao mesmo tempo. Se aproxima de um estado pop do gênero que Jamie xx mais tarde viria a almejar em In Waves, de 2024, mas sem o mesmo arrojo instrumental que o baiano cria aqui.



83. Jlin: Akoma (2024)



Akoma tem todos os sinais movediços de Jerrilynn Patton. Desde o início da sua passagem pelo footwork, que ainda reflete sua velocidade em meio a ganchos desafiadores, até os ornamentos mais dispersos e sensíveis de estilos alinhados às tonalidades da música moderna, tudo aqui soa originário do ponto de vista criativo.



82. Slikback: Attrition (2025)



Attrition, do queniano Slikback, é um daqueles momentos na carreira de um artista de música eletrônica cujo desejo de explodir as pistas de dança se justifica pelo uso expressivo de sons diversos. Até certo ponto, funciona: batidas que viajam à velocidade da luz, breaks quase infinitos e uma constante referência club, sem deixar de ser profundo em cada um desses sentidos. Assume, ao longo de sua duração, um valor composicional que se deleita com linhas percussivas estridentes, com baterias que parecem se autodestruir pela rapidez e agressividade com que trabalham, como em "Trars".



81. Strategy: Graffiti in Space (2023)



“Graffiti In Space beira o experimental e o dance”, diz a descrição do álbum no Bandcamp. E, ao ouvir o disco, essa afirmação está longe de ser uma ideia abrangente ou mesmo meramente totalizante. Aqui, o artista holandês Paul Dickow, também conhecido como Strategy, paira precisamente nesse espaço, construindo-o com a ajuda imortal do dub techno, cuja presença ao longo da década de 2020 se acentuou como parte de um programa de retorno a uma área de constante experimentação na música eletrônica. E, nesse quesito, ninguém o faz como ele. O álbum é repleto de sons que avançam por planos mais acessíveis das modulações quase imersivas do gênero, numa afirmação que vai além do magnetismo e da cadência de polegadas que uma gravação costumava exigir. É um diálogo direto com os fãs do dub techno.



80. Blawan: Dismantled Into Juice (2023)



A quase percussão, oferecida através de uma dezena de planos e breaks – marcada por uma visão de produção linear e plana – constitui uma das diferentes características que Blawan, Jamie Roberts, costuma abordar em suas obras. Dismantled Into Juice, no entanto, contém a diferença primordial entre tudo o que já foi feito por ele. O EP, num movimento comum de demonstração de novos rumos, busca raízes nos vícios repetitivos e intensos da música eletrônica. É, de certa forma, um avanço no estilo desenvolvido pelo artista em seu longo período de criação.



79. CFCF: Never Going Home (2023)



Concebido em um intervalo de tempo de quase 6 anos, a sequência de singles do produtor CFCF, Never Going Home, é uma das melhores abreviações das pistas de dança em 2023. Contrariando qualquer impressão a respeito da suposta – e enganosa – ideia de facilidade nas produções dance/eletrônicas, CFCF busca ir além do óbvio. Never Going Home, então, oscila entre ambient, dub techno e progressive house. Em faixas de dois e até nove minutos de duração, ele expande as impressões do chamado braindance, ou IDM, que colecionou ao longo dos anos durante suas apresentações. Para ampliar ainda mais o repertório, ou torná-lo mais atrativo, CFCF contou com a ajuda robótica do vocaloid Troy. É uma de suas peças mais divertidas.



78. Skrillex: F*CK U SKRILLEX YOU THINK UR ANDY WARHOL BUT UR NOT!! <3 (2025)



Parecia quase inacreditável. Era 1º de abril quando Skrillex lançou este álbum e pegou todos de surpresa. A melhor parte é que F*CK U SKRILLEX YOU THINK UR ANDY WARHOL BUT UR NOT!! <3 impressionou mais do que se poderia imaginar. Suas transições atingiram um nível sem precedentes, com faixas curtas, sem um formato previsível, e tags de DJ que o aproximaram de algo como um epic collage, em vez de seu dubstep habitual, mas isso estava lá, e talvez seja por isso que o álbum cresceu tanto. É o mesmo Skrillex de sempre, mas com um senso de descoberta que talvez ninguém pudesse ter previsto. A faixa mais longa não chega nem a 3 minutos, e tudo parece costurado sem uma força maior do que seus drops. Andy Warhol, não. Marcel Duchamp, sim.



77. DJ DENGUE: ESTILO DURO (2024)



Uma reportagem apresenta o conceito que guia o álbum ESTILO DURO do DJ DENGUE: tom apocalíptico, a manifestação de uma força desconhecida invadindo a cidade. E, subsequentemente, “ESTILO DURO” confirma essa força, com um beat de interjeições (aqui o “uh”) e o beat bolha, tudo unido nas melhores características do funk carioca. Em outros momentos, como em “OLHA O GRAVE”, o design de som percorre os caminhos do funk e o mistura com estilos menos conhecidos do grande público, como o gabber. O foco está em graves que avançam por diferentes técnicas do hardcore, sem soar como uma imitação do que vem de fora quando o assunto é drops maneiristas.



76. Yin Sno: V (2023)



Há um momento específico em V, de Yin Sno, em que você sente as batidas da música pulsando no seu coração. Esse momento é a faixa "AI (krlh p*rra)", onde fragmentos de funk se misturam com uma atmosfera techno que atravessa densas camadas de hardcore, sobrepostas por seções instrumentais que sugerem algum tipo de processo criativo não linear, quase dub. São socos, palmas e percussão que lembram bastante um jogo de BMPs, usados ​​para alcançar esse efeito multidimensional. Provavelmente, são os dois minutos mais gratificantes de tudo o que Sno cria ao longo do álbum, que utiliza essa estrutura em diversos momentos. Um álbum sensível aos cardiopatas.



75. Strategy: A Cooler World (2025)



É um álbum cuja força está na ligação entre as explorações tecnológicas do presente e as raízes dessas tecnologias no passado. Por isso, o produtor trabalha com um teclado de amostragem retirado diretamente de 1989, e compõe – e decompõe – manualmente suas texturas limpas de ambient techno, com uma frieza rítmica nunca exagerada – ou somente fria, por assim dizer, já que sua incursão em paisagens sonoras glaciais justifica seu apelo moderado, pensativo e devocional.



74. Stef Mendesidis: Decima (2024)



O processo que Stef Mendesidis emprega em seu trabalho é, por si só, um elemento essencial para a compreensão dos avanços que ele promove no techno. Seu som está profundamente ligado às tradições da performance ao vivo, como se ele pensasse unicamente em gravar suas faixas dessa forma e recriá-las posteriormente apenas para fazê-las soar como CDs. Talvez seja por isso que Decima soa tão reconhecível e, ao mesmo tempo, tão distinto de tudo no gênero. O processo está presente em cada camada aqui, incluindo a excelente faixa de abertura "Minore", que possui uma atmosfera quase industrial, porém altamente sintética. Quase ao vivo, mas muito calculada.



73. DJ Guaraná Jesus: Ouroboros (2025)



DJ Guaraná Jesus nitidamente sabe onde quer chegar, por isso sua música soa o menos apreensiva possível, como se suas batidas aceleradas, que dialogam com o breakbeat em tom mais atmosférico, fossem construídas sem nenhuma dúvida quanto ao porquê de se constituírem dessa forma. Não se trata de um uso bobo de baterias ou de BPMs acelerados à toa, apenas para gerar uma espécie de choque ou instrumental mais diferenciado. É uma exploração baseada no que o produtor idealiza e coloca em prática, quase sem erros, e por isso ele o faz de forma mais compacta.



72. Skee Mask: Resort (2024)



Desde que estreou com material completo em 2016, Skee Mask, projeto de Bryan Müller, tem se tornado cada vez mais popular entre alguns ouvintes desesperados para eleger um novo clássico da música eletrônica. Esse desejo insaciável de torná-lo um mestre do gênero é até justificável, considerando não apenas o potencial do produtor em agrupar sentimentos e espalhá-los diante do ventilador com seus cortes de breakbeat e faíscas de IDM. Sua força de vontade em aprimorar seus estudos o faz evitar maneirismos como o impulso de gerar momentos mais expositivos e bombásticos diante de peças centradas no ambient apenas para chocar. É como se a sua música fosse, mesmo sem grandes feitos, inusitada por natureza.



71. DjRUM: Under Tangled Silence (2025)



Se Meaning’s Edge, EP lançado no final de 2024, se destacava pela mudança de humor de DjRUM e parecia pecar apenas por uma certa redundância temática – com suas faixas baseadas em construções semelhantes, colagens e instrumentais que, embora chamassem atenção, acabavam minadas por uma repetição cansativa – Under Tangled Silence, seu último trabalho, é o oposto: cheio de nuances e nada redundante.



70. Paulete Lindacelva: Guabiraba, Chicago (2024)



O projeto de estreia de Paulete Lindacelva, de Pernambuco, é um resumo, sem generalizações, de tudo – ou quase tudo – que ela fez em seus mais de dez anos de carreira. Ela brinca com house deslocado da ballroom, com ganchos que expelem certa tecnicidade em criar grooves e batidas mais duras, metálicas, ao mesmo tempo que atua diretamente sobre as características estéticas do gênero sem se distanciar de suas raízes. É o que Gilberto Gil propôs em "Chiclete Com Banana", mas neste caso sem o pandeiro e o bebop. Em vez disso, apresenta Guabiraba e Chicago.



69. Nuno Beats: Sai do Coração (2024)



Sai do Coração, como qualquer obra que busca explorar o amor em suas diferentes manifestações, tem como ponto de partida superação da tristeza através da melancolia, implicitamente ligada ao motivo de corresponder a determinados sentimentos do subconsciente do autor. É como se Nuno Beats quisesse, o tempo todo, dizer-nos alguma coisa, mas a barreira entre a linguagem usada por ele impede que suas observações e apontamentos diretos sejam eficazes, pelo menos a princípio.



68. Barker: Stochastic Drift (2025)



Não que devesse haver uma necessidade de preparação, ou uma premeditação que considere fazê-lo entender sobre as raízes em que o segundo álbum de Barker, Stochastic Drift, se encontra. Mas, para qualquer desavisado, ou alguém que sinta interesse em mergulhar nesse terreno líquidoso e inflamável por ele cimentado, suas texturas gelatinosas e tons quebradiços resumem, em quase perfeita formalidade, o que se tem atualmente de ambient techno na música eletrônica.



67. Verraco: Breathe... Godspeed (2024)



Por mais curto que seja (apenas 21 minutos), Breathe… Godspeed está muito bem alicerçado no que de melhor Verraco conseguiu condensar das suas raízes latinas (que vai do dembow ao raptor house), ao mesmo tempo que se inspira no que seus progenitores eletrônicos estabeleceram no passado como pioneiros, dentro ou fora de seus espaços, ocupado por uma intencionalidade distinta de ressignificar.



66. Anthony Naples: orbs (2023)



Em seu quinto álbum de estúdio, Anthony Naples recorre ao ambient techno para criar algumas de suas melhores texturas musicais. Embora repleto de variações rítmicas computadas através de alguma sinalização orgânica, Orbs ainda tem seus momentos de calmaria. Talvez a intenção de Naples seja justamente fundir estas duas variáveis, visto que a sua carreira sempre considerou cada uma destas expressões individualmente. Lançado em um intervalo de quase dois anos, Orbs é um retorno meticulosamente equilibrado, feito para se encaixar perfeitamente na nova fase de um nome que parece se superar a cada novo trabalho.



65. Basic Rhythm & Blood Trust: Blood Rhythm (2023)



Ao longo dos últimos 30 anos, o drum and bass foi assumindo diferentes perspectivas ao se tratar de suas origens e a forma como nomes diversos buscaram abordá-lo a partir de suas marcas originais situadas nos anos 90. É desta mesma perspectiva que Anthoney J Hart e Quinn Smith fazem Blood Rhythm. O EP mergulha em ganchos sombrios que não descansam enquanto viajam pelos 160-180 BPM de modo a acenar ao jungle. Essa mistura, essa forma, é o que dá corpo às faixas, sem um apelo nostálgico aos anos 90, mas partindo de uma recuperação do manuseio do gênero, como pode ser visto em “Death Mask”, faixa cheia de batidas soltas, metais e baixos que se cruzam sem criar uma homogeneidade característica do drum and bass atual.



64. Iguana: Escama (2025)



Escama, EP de estreia do produtor Iguana, desafia a já constante experimentação dentro do funk. É um trabalho que encontra sua razão de ser na insubordinação a padrões e estruturas, funcionando tanto como parte da vanguarda da música eletrônica experimental quanto do próprio funk. Aqui, a ideia de sons extremos e batidas implacáveis é levada a sério, sobretudo pelo uso de texturas líquidas e rangidas que, embora sigam o compasso tradicional do funk, transcendem os limites normativos do gênero.



63. Walk:r: Coercion (2025)



A ThirtyOne Recordings é uma das gravadoras de música eletrônica mais interessantes que se espalhou pela Europa e continua a ter uma influência significativa na cena do Reino Unido. Coercion, de Walk:r, é um dos grandes de destaques dos últimos anos do selo. Neste EP, o drum and bass é salpicado com um ritmo mais acelerado do que o habitual, e logo na faixa de abertura, "Late Night", com os vocais de Bluejay, essa velocidade atinge diferentes níveis. É o tipo de som que oferece ao gênero perspectivas para avanços internos em suas configurações. E a velocidade, neste caso, tem um peso imensurável, por isso é admirável quem consegue controlá-la.



62. RamonPang: Life Cycle Waves (2024)



Honestamente, não há nada que possa prepará-lo para Life Cycle Waves. RamonPang, desde Nature System, de 2021, vem coletando essa coisa interdimensional, com ambientes voltados para internet e samples que funcionam como verdadeiros socos que ele desfere através de seu IDM que se fragmenta em mil estações harmônicas. A todo momento, harpas (“Run Algae”) e amostras vocais, no melhor estilo nightcore (“Deze”), surpreendem como parte da intransigência do produtor em nunca finalizar suas linhas melódicas. É como se cada segundo de música fosse pensado para sofrer interrupções, ser distorcido ou se tornar um eco nostálgico (“Be With Me”).



61. Naves Cilíndricas: N​é​voa (2020)



Há algum tempo, escrevi sobre como uma grande parte de uma pequena, porém ainda conhecida, fração da música eletrônica brasileira atual se autodenomina "produtores", mas não produz nada e apenas finge ser Arca e SOPHIE. Naves Cilíndricas, projeto de Gabriel Junqueira, é o completo oposto, e é por isso que é um dos melhores nomes dessa cena. Seu álbum de 2020, Névoa, brinca com texturas de microsom, electroacoustic, deconstructed club e uma série de ideias que permeiam nomes populares – a própria capa soa como uma referência a Arca – mas seu trabalho é refinado, bem produzido e profundo. Não soa como uma imitação ou algo do tipo; é original e revigorante. Ele sabe como lidar com suas referências sem simplesmente fingir ser elas.



60. Nick León: A Tropical Entropy (2025)



Os artistas do selo TraTraTrax sempre têm algo de relevante a apresentar na cena de música eletrônica derivada da América Latina. Se em 2024 foi Verraco quem representou suas raízes com um dos melhores discos do ano, em 2025 parece ser a vez de Nick León. A Tropical Entropy surge como mais um marco dessa leva brilhante que parte daqui para o mundo, e acerta em estruturar cada uma de suas faixas como se fossem canções de apelo pop mais generalistas, intenção confirmada por “Bikini”, com Erika De Casier, uma das melhores coisas lançadas nesta década. A música – e o álbum – avançam por uma estética atrelada a estilos como neoperreo e IDM. É a ponta perfeita do iceberg da nova escola (latina) de música eletrônica/dance.



59. IDLIBRA: Muganga (2023)



Muganga é o projeto que consolidou definitivamente a presença da IDLIBRA no cenário nacional. O EP aborda diretamente a formação de ritmos que atuam como pontes entre a música eletrônica formal e a música eletrônica que vem se desenvolvendo no Brasil ao longo da década de 2020 a partir do funk e de outros estilos regionais. Apresenta, através disso, momentos que exploram samples vocais – acapellas – de funk, como em "Ração", faixa que, aliás, funciona como um funk distópico, repleto de batidas fortes. Algo semelhante ocorre na abertura, "Breganbass", cujo brega se condensa com uma percussão densa de semi-hardcore. "Xrqnha", o ponto central do EP em termos dessa inferência estética, avança por meio de batidas rápidas, funk acapella e uma atmosfera club sombria, porém acolhedora. Uma sonoridade que aquece mais do que esfria.



58. Sofia Kourtesis: Madres (2023)



O que se destaca em Madres, da artista peruana Sofia Kourtesis, são as letras, envoltas em batidas house e suas variações mais abrasivas, em uma profundidade temática que cresce ao longo do álbum. Em vários momentos, sua voz parece emular uma performance ao vivo, ecoando ao fundo das faixas e, às vezes, em primeiro plano. Isso contribui para um equilíbrio muito interessante, especialmente ao instigar diversão e energia dançante mesmo ao abordar temas que englobam signos e raízes culturais que recebem um tratamento de vanguarda.



57. Carlos Do Complexo: Torus (2021)



Carlos do Complexo é, de longe, um dos produtores mais importantes da música brasileira na atualidade. Seria exagero dizer isso? É até um pouco contraditório, visto que grandes produtores, mundo afora, sempre falham no ato de lançar o próprio disco, a própria música. Claro, depende, são casos e casos, e em 2021 ninguém parecia tão desenvolto e interessado em lançar um disco quanto Torus. O disco também é o material que o projetou, e não é por menos. Sua abordagem vem de uma tríade estética que posiciona fragmentos vocais, sintetizadores e diferentes camadas que percorrem diferentes estilos de eletrônica club (“Planeta-Espelho”), mas também de vanguarda, como pode ser visto nos momentos em que as ambiências declaram a própria natureza atmosférica e sensível, como em “PHi”.



56. weed420: amor de encava (2025)



Por mais caótico que amor de encava possa soar, tudo aqui está onde exatamente deveria estar. O uso do epic collage mais do que um gênero/estilo para se apoiar, mostra-se como parte do tema que artistas como os do projeto venezuelano Weed420 e toda sua estranheza tendem a proporcionar como ninguém. Apenas perca-se nisso.



55. DJ Rosa Boladão: Cyberbaile (2025)



Em Cyberbaile, DJ Rosa Boladão trata a fusão de funk com eletrônica de forma sutil e controlada, num nível tão exatico quanto metodológico, criando essa ponte sem demarcações rígidas. É quase imperceptível. Na faixa de abertura, “Cyborg”, por exemplo, o som mais ambiente que logo é tomado por caixas secas e batidas de house soa quase comum ao lado da acapella de MC utilizada. As variações ao longo da faixa acontecem a partir da introdução dos graves do funk, que explodem as caixas, e de uma eletrônica com ares chill dos anos 2010, que recebe essas interferências sem grandes disrupções.



54. Vários Artistas: UNDERGROUND VOL.1 (2025)



Ano passado, o selo ROTAS, de Recife, decidiu reunir uma ruma de artistas com diferentes abordagens e ideias voltadas à cena club para lançar uma espécie de manifesto da música eletrônica vinda do Nordeste. O resultado, como se pode imaginar, é um verdadeiro compilado de algumas das faixas mais espirituosamente diversas de que se tem notícia. São batidas que percorrem demarcações locais, com repercussões orgânicas mescladas a efeitos de bateria e baixos estridentes, frações de funk com techno, jungle e tudo o que se pode criar a partir de uma perspectiva distinta da eletrônica padrão que se perpetua no Norte Global e que é aqui desafiada em alto nível.



53. Krystal Jesus: For Liza, Beyond the Event Horizon. (2021)



Persistiu por muito tempo uma noção falsa de que a música eletrônica, devido a seu aspecto sintético – sim, uma espécie de produção que reproduz um instrumento sem necessariamente usá-lo, ideia totalizante parte dessa noção –, seria mecânica demais, fria. E, por mais que essa noção receba hoje um tom purista que a reafirme, coisas como For Liza, Beyond the Event Horizon., podem ser vistas como a contraposição, uma contra-argumentação. O disco é dedicado a um ente perdido, e o teor de homenagem é fortalecido pela própria grandiosidade com que o projeto se expande. Tem vida, pois trabalha o IDM e suas ruminações glitch de forma universal, sem se ater a dimensões, pactos ou padronagens de composição. São instantes que devoram a mente, mas que emocionam por fazê-lo como um tipo de dedicação – de amor puro – que não se vê por aí. Por vezes assusta, e deveria. O belo é pavoroso mesmo.



52. Honey Dijon: DJ-Kicks (2024)



Mais do que uma exímia artista em sua área, Honey Dijon também é uma pesquisadora. Uma estudiosa da música house e da música eletrônica que se desenvolveu nos Estados Unidos após os anos 80. Época em que ela cresceu, e desenvolveu interesse pela vida noturna, pela cena club local e por tudo o que girava em torno deste mundo. Seu DJ Mix de 2024, é um dos apanhados mais importantes da década de 2020 até agora. Há, aqui, sua visão inconfundível, sua missão posta em cada escolha. São faixas e artistas que moldaram sua visão, e a visão de um contexto inteiro de música dance, e que ela busca dar o devido valor.



51. Yazzus: Black Metropolis (2022)



Há um tempo, surgiu um movimento de recuperar narrativas na cena de música eletrônica, cada vez mais aberta a diferentes abordagens, pessoas e multidisciplinaridades. Um desses movimentos é o black techno, que Yazzus assume em seu EP Black Metropolis, lançado pela icônica gravadora Tresor. O disco finca sua razão de ser em texturas ásperas de techno condensadas por uma visão mais dance, padrões de percussão que se fragmentam e samples vocais irreconhecíveis. A imagem que cria é nítida: um futurismo ligado à própria perspectiva da produtora, que trabalha a experiência tecnológica a partir do afrofuturismo como guia prático das colocações vigentes do experimentalismo negro nas artes.



50. Oneohtrix Point Never: Tranquilizer (2025)



Pouca coisa se parece com Tranquilizer. E é um alívio saber que, mesmo após anos refinando sua técnica de roubofonia, Daniel Lopatin ainda tenha plena consciência da forma como conduzir isso, pela afinidade que tem em criar espaços atmosféricos etéreos, pontos de colisão que ora se condensam em um ritmo mais agitado, ora em um ritmo arrastado, lento. De qualquer forma, sua colagem e sua predisposição em criar artefatos sonoros inusitados ganham uma direção nova aqui. É o seu melhor trabalho em anos, sobretudo por funcionar como um testamento direto do que ele fez, ou seja, sua busca por mídias e arquivos, físicos e digitais, que possam se transformar nisso que se ouve e pouco se dá para descrever.



49. DJ Anderson Do Paraíso: Queridão (2024)



Mais do que propor algo novo, é preciso implementar seus símbolos, e Anderson faz isso com algumas parcerias que complementam sua ampliação de horizontes como representante do funk de BH. É brilhante, e Queridão não poderia ser mais competente nisso do que é. O exercício proposto ao longo de suas 17 músicas – cada uma sendo um capítulo da história do movimento – são exposições da mudança, que decodifica e demonstra claramente a sua base: a rua.



48. Hoshina Anniversary: Karakuri b​/​w Michinoku (2021)



A paleta presente em Karakuri b/w Michinoku pode até esconder sua diversidade nos segundos iniciais, quando a linha de baixo parece saltar em distâncias alternadas de um metro, enquanto o restante do ritmo tenta acompanhá-la. Esse estilo de toque, cuja progressão parece ser física, é o que sustenta os estilos abordados por Hoshina Anniversary ao longo de duas peças compostas por uma impressão que beira, em alguns instantes, um efeito de psicodelia que se perpetuou em alguns terrenos da eletrônica na Ásia.



47. Arca: KicK iii (2021)



O terceiro álbum da série de lançamentos da venezuelana Arca, intitulado KICK, é o melhor de todos. Nele, a artista oferece momentos mais abrangentes em relação à sua densa mutação que percorre espaços indistintos da música eletrônica, avançando cenários e posições que geram inúmeros efeitos em termos de sonoridades que são ora acessíveis, ora desafiadoras – ao extremo – até mesmo por seus padrões.



46. J-Shadow: SNKRX08 (2021)



De alguma forma – na verdade, é mais direto do que parece –, “Fade” lembra Burial. Surge com um tom estendido que é um tanto suave, misturando-se à atmosfera vocal rastejante, empoeirada. É nostálgica, mas logo tudo muda para um jogo contínuo de caixas e tiros de blasters na sequência “Kugelblitz (The Inescapable Rewarp)”, em que J-Shadow parece fincar de vez o que, ao seu ver, pode ser definido como uma “flexibilidade híbrida”, ou seja, seu avanço por elementos reconhecíveis através de misturas que geram esse tipo de combustão estética lúdica.



45. Pavilion: P12_02 (2022)



O som de P12_02 parece distante. De certo modo, é assim que Pavilion quer que o enxerguemos. Visualizar música? Estranho, pois também é isso que o disco parece nos impor conforme avança em sua atmosfera quase industrial, mas um tanto atmosférica, do techno enraizado nos arredores das escolas de ambient de Berlim. Você já deve saber a história, e, por isso, as duas faixas aqui não precisam de muito para marcar presença. Ouvi-las – e vê-las – é o suficiente.



44. DJ Méury: Só as top da Dj Méury (2023)



O rock doido tem uma relação íntima com o funk – ainda é chamado, em muitos lugares, de tecnofunk – que, por si só, já espelha a natureza da música eletrônica produzida em solo brasileiro. A diferença reside na forma como o público absorve e reproduz este som. Há várias formas de dançar, de curtir o rock doido, sobretudo por seu apelo de amostragem, que sampleia memes, frases e dá foco a palavras e termos locais que acabam virando parte do ritmo. Ombros tremendo. Baixo explosivo, às vezes seco até demais. Soma-se a isto repetições exageradas. E tudo isso está presente em Só as top da Dj Méury, álbum da DJ Méury, pioneira do gênero e que deu cara e corpo a muitas dessas características, ainda que o fizesse por meio de uma simplicidade e de um apelo profundamente eletrônico (não há espaço para coisas que não sejam mecânicas), que diferem este rock doido daquele feito posteriormente por nomes como Gaby Amarantos, mais pop, mais simples.



43. DDrhode: Ghoroob (2024)



Há um momento em Ghoroob em que, de tanto se estender, o deep house acaba criando uma ponte natural com o techno, essencialmente pela composição mais melódica de um e pela repetição do outro, que parecem preencher um buraco em momentos como “Ghoroob (Dub)”, cujo ritmo assume atmosferas mais densas, aeradas do ponto de vista da incursão do dub. É fantástico por infinitas razões, mas o resultado é tão impressionante quanto inovador.



42. DJ RORO: Montagem Funk 3000 (2025)



Tudo o que você já ouviu no funk está aqui. É passado e presente condensados nas raízes do pancadão anos 2000 (“Montagem Se Ela Dança Eu Danço+”), nos avanços estéticos do beat bruxaria triturado por tuim (“Montagem Vamos Brincar+”) e um design de som atordoante responsável por dar vida a essa miscelânea de técnicas e estilos. Apesar de jovem, DJ RORO tem muita habilidade em testar suas ideias, fazendo de Montagem Funk 3000 um disco que avança e retrocede no melhor do que o gênero pode proporcionar.



41. Tygapaw: Love Has Never Been a Popular Movement. (2023)



As pistas de dança são muito mais do que apenas um local de curtição para o jamaicano radicado no Brooklyn Dion McKenzie, conhecido como Tygapaw, que em love has never been a popular movement., explora os espaços de identificação da sua identidade trans e a maneira como o mundo o vê. É uma obra densa que percorre o techno, ritmos club e o jungle postados no melhor da música eletrônica.



40. 清水靖晃 [Yasuaki Shimizu]: Kiren (2022)



Como era a música eletrônica em 1984? Este álbum do lendário compositor japonês Yasuaki Shimizu [清水靖晃] conta um pouco. O disco, que mergulha em ritmos cadenciados do synthpop sob uma perspectiva experimental para a época, cria belos instrumentais que fazem uso do melhor dos sentidos dos elementos sintéticos da forma ainda caseira da eletrônica que se desenvolvia naquele período. É um achado histórico incrível.



39. Mark Fell: Nite Closures EP (2025)



Há quem diga que este é o maior disco de Mark Fell neste século. Há, também, um pouco de razão nisso. O EP foi lançado como o primeiro material solo dele voltado à música eletrônica em um tempo considerável. Não só isso, marcou a inauguração do seu selo The National Centre for Mark Fell Studies. O retorno não poderia ser diferente. Aqui, texturas mínimas se espalham por entre caixas que desviam ruídos para criar batidas que são, de um lado, pontiagudas, estendidas e, por outro, cortantes. Essa descrição é acompanhada da visão dance que Mark possui por sua experiência no deep house, e que aqui soa como se criasse através de limitações propositalmente pensadas para gerar sensações distintas de diversão na pista de dança.



38. ZULI: All Caps (2021)



All Caps pode até soar como uma formalização do uso recorrente de estilos baseados no breakbeat hardcore, que surgiram nos anos 90 como um segmento menos exato dele, é o caso do jungle e do drum and bass. Mas existe algo mais profundo aqui. Na faixa de abertura, “Tany”, fragmentos vocais são transformados em instrumentos, enquanto baixos se condensam com pausas e um ritmo que brinca com tempos distintos e com uma profundidade que atinge o âmago. É como se a experimentação de ZULI tivesse a obrigação de passar por terrenos que vão além da plenitude do som e quebrasse a barreira, fazendo-nos emergir dentro deles. É por isso que a sequência, “Bassous”, faz com que esse caminho recheado de caixas, efeitos 3D e vocais transmutados em ritmo se torne uma coisa só. É surreal.



37. Chaos in the CBD: Sirena Deep (2023)



Não há ressalvas quanto ao fato de o deep house ser o estilo mais coringa desta lista. Ele está em quase tudo, mesmo quando ele não está. E este trabalho incrível do projeto Chaos in the CBD tem o poder de descrever muito bem essa malemolência adaptativa. Sua linha de baixo é marcante ao ponto de sobrepor-se ao ritmo que ela mesma acaba criando. É tipo um sinal de como o deep house se estrutura para além da própria forma, ou seja, ganha vida própria. A atmosfera new age colabora para isso, mas é a presença irremediável da melodia quente que torna tudo ainda mais incrível.



36. Ventura Profana & Podeserdesligado: Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor (2020)



Ventura Profana é Deus. Deus pune, mas Deus também liberta. A liberdade é um dilema do pentecostalismo, essencialmente do que se tornou comum nas igrejas de bairro em todo o Brasil. Ventura Profana conclama ser pastora missionária. Sua bio diz: “Doutrinada nos templos batistas, é pesquisadora das implicações e metodologias do evangelicalismo no Brasil”. Por isso, seus traquejos neste disco em parceria com Podeserdesligado vão além de um desejo homicida ao Senhor Deus. É direcionado aos Senhores, que dizem: “Contra o domínio cruel e colonial dos senhores, que por séculos nos escarnece e mata. Com cantigas proféticas, de vitória e encantaria, freamos o plano necropolítico e alvejante de condenação do devorador”. E são os ganchos atrelados a tendências dance de pista, como as batidas e a composição das distorções fortificadas em “Homenzinho Torto”, que dão profundidade temática ao que abordam aqui, sem divagações. Voz ecoando, bases esparsas.



35. Polygonia: Da Nao Tian Gong (2024)



O sentido lúdico de Da Nao Tian Gong vai além de seus toquezinhos caricatos, fofos e que reimaginam uma espécie de futurismo retrô. O disco é inspirado em uma animação, na qual Lindsey Wang busca criar um espaço comum entre memória e criação atual, e o faz com uma maestria invejável. São momentos cujas batidas parecem descansar em módulos ambientes de techno, barulhinhos de jogos e efeitos divertidos que emulam muito mais do que a pista de dança.



34. Tim Reaper: Pearshape (2025)



Para muitas pessoas, ouvir Pearshape pode não revelar muita coisa. As batidas são facilmente assimiláveis. Seu conjunto instrumental – baterias e baixo – é tão dinâmico e próximo de outros lançamentos do gênero que acaba transmitindo a impressão de apenas percorrer caminhos já conhecidos. E, de fato, é. Mas o que Reaper faz aqui vai além disso. É como se seu gesto fosse uma revisão, muito ao seu estilo, desses elementos consolidados, sobretudo no desenvolvimento do jungle pós-anos 90, daí sua mescla com drum and bass e até estruturas que acenam ao dub. É um dos melhores lançamentos recentes dele, entre tantos outros, justamente por colocá-lo em uma posição de redescoberta.



33. Ceephax Acid Crew: Slam Zone (2025)



As quase duas horas de duração de Slam Zone passam em uma velocidade sem igual. E, mais do que ser um megazord completo de estilos condensados ao acid, o disco é um tanto imperdível para quem, de alguma forma, sente atração física por batidas que deslizam por demarcações táteis de IDM ao passo que reconstrói sua historicidade pelo breakbeat hardcore e tudo o que deriva dele. É um livro que conta a história de muita coisa, comprimida em faixas, em durações, em batidas que têm muito a dizer, desde que sejam apreciadas com clareza.



32. DJ Babatr: Root Echoes (2025)



De 2003 a 2007 é o período de tempo em que se localizam as faixas de Root Echoes, novo álbum do venezuelano DJ Babatr. O mais interessante, porém, é como essas músicas parecem não se prender a esse espaço temporal que ficou no passado, muito pelo contrário: seu som avança, atinge modelos futuristas de eletrônica que se desenvolveram na América Latina. E isso tem um nome: raptor house. DJ Babatr criou esse estilo e há muito vem operando nele.



31. 8004: 8004 (2025)



Minimalista e paciente são duas palavras que conseguem descrever bem 8004, um dos destaques do selo Kino Disk. O álbum parte de texturas que se tornaram clássicas do ambient dub, mas o faz com foco no que o ambient – o gênero – pode proporcionar. Começa com barulhos de chuva na janela e, aos poucos, vai ecoando estalos e ruídos do local em que se encontra, criando uma atmosfera que pode ser sentida friamente. É estranho pensar que a música pode ser capaz de resultar em provocações como as presentes aqui.



30. Pixl, Kid Drama, Quartz, Gremlinz & Tim Reaper: Meeting of the Minds Vol. 9 (2023)



Este é um dos casos em que o nome do disco, de fato, presume com confiança do que ele se trata. Aqui, alguns dos nomes mais interessantes de algumas das tendências mais interessantes do breakbeat e do jungle se unem em torno de uma criação unicelular da mescla de técnicas e de uma linguagem que Tim Reaper, a peça que mais se destaca arbitrariamente, iria definir melhor no ano seguinte, mas que aqui apoiou um dos melhores usos de samples e de batidas em alta velocidade.



29. Tim Reaper & Kloke: In Full Effect (2024)



Em In Full Effect, Tim Reaper & Kloke buscam capturar algumas das marcas mais contrastantes do jungle, sem se limitar ao ruído das caixas de drum and bass ou à repetição que advém da mistura de breakcore e techno. Embora esses elementos estejam presentes, eles não são o único fator na fórmula que opera em plena força, unindo texturas e batidas que induzem um estado de transe. É por isso que a descarga emocional provocada ao longo do álbum é alimentada pela velocidade inebriante com que momentos melódicos acessíveis (“Juice”) e momentos sombrios (“Havoc”) se chocam simultaneamente. É a melhor demonstração de domínio do jungle nesta década.



28. Objekt: Ganzfeld (2024)



“Ganzfeld”, a faixa, sempre foi muito celebrada, e com razão. A música parece reunir uma pilha de coisas que surgem em conjunto a cada geração. Sua linha de baixo foi o que a fez ser a música do ano em 2014 pela Resident Advisor, e eles afirmam isso sem rodeios. Anos depois, Objekt resolve trazer a faixa para um novo momento, usando-a como token para inaugurar o seu próprio selo. Para tal, ele escalou um time de produtores responsáveis por impor versões ainda mais interessantes. E assim é feito. O remix com DjRUM é perfeito. Ele coloca piano e uma pá de elementos que passam longe do espectro estético de Objekt, mas mantém o espírito da faixa – que é sua linha de baixo icônica –, e assim nasce um dos discos mais importantes, uma vez que prova o poder da reimaginação e da continuidade da música, e mais interessantes por fazer isso em um contexto de inovações fajutas em todos os campos.



27. WINO-E: WINO-E (2025)



É um som tão grooveado que, mesmo transmitindo sinais de house por entre sua superfície porosa, consegue criar um efeito que é profundo e denso ao mesmo tempo. Seus melhores momentos são tomados por barulhos ambientes, centralização de elementos que ditam sinais de industrial e um sentimento club que reproduz um techno meditativo, por vezes dançante, mas sempre pegajoso e contido.



26. UFO95: Backward Improvement (2024)



Em Backward Improvement, o produtor UFO95 explora as marcas deixadas por um espaço importante para a vanguarda do dance no contexto do techno berlinense: o clube tresor, casa do Basic Channel. Essa abordagem joga contra a normalidade dos referenciais tradicionais; UFO95 busca criar algo próprio. É a partir desse local físico que o produtor parisiense realmente trabalha a estética de Backward Improvement, baseada na mistura da repetição do techno com grooves acessíveis para a pista de dança. Essa diferença temática percorre as 6 faixas do EP, que, embora mantenham elementos semelhantes, apresenta nuances de tons constantemente diferentes, como o dub de “Cigitor” e o minimalismo de “Wallon”.



25. DJ Ramon Sucesso: Sexta dos Crias (2023)



Sexta dos Crias acerta ao recapitular a concepção que DJ Ramon Sucesso emprestou a outros DJs. Aqui, o instinto roubofônico do funk ganha espaço entre peças épicas de 15 e 17 minutos, movido pelo beat bolha e pela liberdade intrínseca de Ramon em revelar sua importância no desenvolvimento do gênero. 



24. K-Lone: sorry i thought you were someone else (2025)



Quando menos se espera, sorry i thought you were someone else está nas nuvens, flutuando junto de fragmentos vocais, pequenos disparos de synths, batidas hipnóticas de techno e fragmentos de house que surgem em algumas viradas que, mesmo previsíveis, criam uma base de sentido impensável, pois tudo se articula através de uma intimidade voraz, um sentimento de olhar para o céu e ver K-LONE lá. Aqui, esse olhar ao céu pressupõe um olhar ao infinito, onde se destaca sua fuga e introspecção após perder o pai. É possível sentir o que ele sente. Não de forma literal, e isso é o que mais me encanta aqui. É verdadeiro.



23. Tim Reaper & Coco Bryce: MYORFR001 (2024)



Um dos trabalhos de jungle mais prolíficos da história. Das muitas colaborações de Tim Reaper, essa é a que ele mais usa suas técnicas de amostragem e de repiques nas caixas secas para criar caminhos tão sinuosos quanto qualquer coisa que exista e que seja minimamente parecida. Coco Bryce o acompanha lado a lado, não fica para trás, e faz sentido o que Sophie escreveu para o aquele tuim sobre esse disco: é uma partida de pingue-pongue completa, cheia de movimentos e imprevisibilidade. São 22 minutos de desorientação pura.



22. Sandwell District: WHERE NEXT? (2024)



O trabalho do Sandwell District é conhecido. Atravessou décadas e teve um impacto gigantesco em fãs fervorosos de minimal techno. A compilação de 2024, lançada um tempo depois da morte de Juan Mendez, também conhecido como Silent Servant e um dos principais membros do projeto, passa longe de ser um resumo, ou de se parecer como tal. Busca, na verdade, recorrer ao legado e bater de frente com muito do que hoje é propagado no estilo que basicamente ajudaram a moldar. Por isso, momentos como “Hypnotica Scale” furtam toda a atenção, pois parecem contornar as batidas esparsas e características do minimal techno a partir de algum tipo de microdistorção, que ganha corpo conforme avança na estrutura central do gênero. É uma aula sem didática, in loco. E funciona.



21. Surgeon: Crash Recoil (2023)



Muitos conhecem o selo Tresor devido ao impacto que o Basic Channel causou através dele. E, de fato, é uma das gravadoras e distribuidoras de música eletrônica mais importantes do mundo, pois não só teve impacto através de um projeto, como também vem moldando o gênero até os dias de hoje. Em 2023, um dos principais lançamentos deles foi Crash Recoil, de Surgeon. O álbum surge de uma experiência ao vivo, em que o britânico e sua experiência de longa data no techno buscam testar novas formas, como cultivar a independência dos próprios circuitos cujo som seria transmitido, forçando um descontrole – ainda que controlado – do próprio estado final dos ritmos e das variações tímbricas que dão a impressão de desconfigurar o four-on-the-floor da estrutura das músicas. Esse movimento, apesar de parecer simples, gerou um produto fantasmagórico (“We laugh and clap at the circus”), uma atmosfera quase nuclear. É inventivo na medida certa.



20. Loidis: One Day (2024)



One Day, o álbum de estreia de Loidis, projeto do produtor Huerco S. (Brian Leeds), se expressa de forma tão convincente ao dominar as quatro paredes de uma hipotética boate que acerta em cheio na construção de um ambiente noturno e figurativamente sensível. Essa proposta pode ser notada logo na faixa de abertura, “Tell Me”, que simboliza todo o álbum não só por ter sete longos minutos, mas também por conter a sutileza do produtor em tecer momentos dançantes e equilibrados ao mesmo tempo, características importantes do minimalismo que cerca obras baseadas no microhouse.



19. Tim Reaper: Teletext (2021)



Tim Reaper nunca está sozinho. Seus sons também não. Mesmo quando o projeto inspira uma colocação individual, solo, ele parece estar acompanhado, ou estará de fato. O mesmo vale para suas batidas, sempre dosadas por elementos que adentram um espaço quase dub – toda a construção atmosférica deste EP –, com pequenos elementos minimalistas acenando ao fundo de suas caixas rápidas e secas. Às vezes, é mais techno do que jungle (“Anytime” e “Who Run It”), com fragmentos vocais fazendo o mesmo. No fim do dia, são raras as vezes em que ele se força a não combinar com algo.



18. Florian T M Zeisig: Planet Inc (2024)



A introdução de Planet Inc, “85805”, cria uma sensação de drone que nem a justificativa mais exagerada do ambient dub ao longo da obra consegue contrariar. É interessante, pois a própria visão do gênero parece ser deixada de lado para que a atmosfera central possa ser construída. E Florian T M Zeisig o faz com uma aerodinâmica surpreendente, com um vai e vem de elementos perceptíveis apenas a olho nu. Os fragmentos vocais buscados pelo vômito na textura, compulsivamente sintéticos, criam uma espécie de ambiente espacial que converge com sinais mais puristas de techno. É uma completa disforia do dub.



17. Dwarde & Tim Reaper: Early Nights (2024)



É divertido como a abordagem de Tim Reaper ao jungle é fácil de ser reconhecida. Mais do que isso, é divertido como ele parece mergulhar em uma espécie de nostalgia, um toque retrô, que, mesmo soando antigo, passa longe de ser literal nessa aderência com o passado. E o que ele faz aqui na esteira de Dwarde é acentuar essa característica, com os espasmos gerados através de teclados cintilantes e melodias afáveis, com batidas que, mesmo sendo agressivas de certo ponto de vista, são incrivelmente acessíveis – daí vem o happy hardcore – e conseguem ser tão dançantes quanto coloridas.



16. d.silvestre: D.Silvestre (2024)



Quando escrevi para o aquele tuim sobre este álbum, inicialmente não o via através de elementos que ditassem uma constituição de música eletrônica. Achava-o distante de seus semelhantes, sobretudo por partir de ideias voltadas ao EDM que, mais tarde, d.silvestre viria a abordar em O Que as Mulheres Querem, como a linha de baixo afastada das acapellas e as viradas imprevisíveis. Mas foi a minha associação com o Basic Channel em “Xeque Mate” que me fez recalcular a rota. É um disco essencialmente eletrônico. Ele grita isso, inclusive, na abertura “157 X Terremoto”. E aqui estamos, diante de um dos discos mais influentes da cena nesta década. Obra que fez com que o funk paulista, a partir de 2024, buscasse ainda mais recuperar aspectos técnicos evidentes em sua relação com a eletrônica produzida fora do seu meio.



15. Klein: Cave in the Wind (2022)



Um fato curioso é que a sound collage é uma das técnicas de música eletrônica mais antigas do mundo. Remonta aos anos 20 do século passado, muito antes de tudo o que a eletrônica viria a se tornar décadas depois, especialmente nos anos 90 e no boom de investidas no que se tem de EDM hoje. Para Klein, este estilo é parte do que vem definindo seu trabalho em diferentes pontas, e Cave in the Wind é quase o oposto do que viria a fazer depois de 2022. Na verdade, há uma aproximação disso tudo, mas sabemos que sua ida ao drone, por exemplo, começa aqui também. É importante dizer isso, pois ninguém além de Klein tem dominado melhor essa técnica na atualidade, o que faz com que suas escolhas de composição alternem entre aspectos que são únicos e, ao mesmo tempo, universais, com uma abordagem mais claustrofóbica de fragmentos vocais, ruídos, gravação de campo e por aí vai.



14. Quelza: Pensa Poetico (2025)



Os 11 minutos da faixa de abertura de Pensa Poetico, de Quelza, sintetizam muito bem o que o disco como um todo propõe. Seus breaks gélidos parecem agir prontamente em diferentes ondas de rádio, com batidas que se fragmentam em um crescendo descrito como “dramático”, e de fato é. O grande acerto aqui, porém, está na maneira como marcas clássicas do IDM são trabalhadas, como se o disco propusesse um revisionismo – no melhor dos sentidos, é claro – do que seus antepassados criaram. Por isso, mesmo que por instantes acene a nomes primordiais como Autechre e, em um sentido mais superficial, Aphex Twin, Pensa Poetico é como se andasse na contramão, impondo caixas onde sequer poderiam existir (“A Bird With Burned Wings”) e adotando um sentido temático que moderniza tais condições de existência do breakcore.



13. Dax J: Brixton (2022)



Techno profundo e de alto nível. Não há nada que chegue perto disso aqui. Escute e estude como sendo um dos lançamentos mais pontiagudos do gênero. Suas batidas metálicas partem de kicks que pulsam numa velocidade à parte. É sujo. Denso por gerar imagens aterradoras, submundanas e longe de purismos. A abertura, “Brixton”, parte de uma simplicidade, à primeira vista, sem valor, pois une características formadoras do gênero, como o uso vocal sendo parte do combustível que dá fôlego às repetições. Mas sua camada superior é tão seca, rápida e efusiva que acaba ocupando todo o espaço que a música inicialmente parece se dispor. É invasivo. É ríspido. É a visão de techno mais direta que qualquer pessoa pode ter: um galpão abandonado, pouca iluminação, fumaça ofuscando a vista enquanto pessoas dançam descontroladamente no meio da pista de dança.



12. PLO Man: anonymousmaterial (2023)



Existe uma razão para este disco ser tão incrível e tão adorado pelos conhecedores de techno. E ela é bem simples. Não chega a ser a coisa mais inovadora do mundo, mas, quando a segunda faixa começa, “fig.015”, tudo parece fazer sentido. A peça em questão é o que se tem de mais comum no dub techno, exceto pelo fato de não ter baterias. A impressão que causa é a de que algo está faltando. Na verdade, essa sensação vem depois de saber da informação inicial. É como se subvertesse as expectativas a ponto de elas sequer existirem, pois a abordagem do gênero é feita de forma tão concisa que choca. Apenas isso. Choca. Mas anonymousmaterial não é bom apenas por isso, embora seja justamente isso que o coloque à frente de muitas coisas, vez que vai contra a reprodução comum do techno e propõe, com ênfase no próprio design de som, o que já existe. É genial.



11. Iri.gram: Iri.gram (2025)



Um dos melhores discos de música eletrônica desta década, Iri.gram não apenas recai na facilidade descritiva de propor uma visão mais indefinida de estruturas dub. O disco, lançado pelo selo False Aralia – que tem reunido uma série de trabalhos com diálogo semelhante a este –, estreita laços com a não indiferença de tudo o que, previamente, podemos saber de eletrônica. Seu design, viscoso e acelerado, parece fluir com uma naturalidade mordaz, enquanto seus BPMs dão a impressão de serem usados como partes de um caminho que muda de direção o tempo todo. As quatro peças aqui apresentadas trazem interpretações distintas dessa amplitude de marcas: a primeira é mais aguada; a segunda, enferrujada, com metais que se chocam e criam ondas de som precisas; a terceira aprimora, como uma colagem não calculada, o que as duas primeiras estabelecem; e a quarta rompe com tudo. É densa, mas extremamente solúvel. Nela, constata-se o quão secas são as batidas, ainda que adornadas por elementos que passam longe da superfície.



10. Blinded By Science: 8205FR001 (2023)



Uma parte importante do acesso aos grandes clássicos de determinados estilos da música eletrônica está nas rádios e nos selos responsáveis por gravar, publicar e fazer circular obras que, em muitos casos, permaneceram desconhecidas por décadas. 8205FR001 é um exemplo de como esses lançamentos acontecem e, mais do que isso, de como resistem ao tempo e preservam impacto dentro da contemporaneidade do jungle. São algumas das músicas mais empolgantes e artesanalmente fascinantes do gênero, sobretudo por reunirem em sua estrutura características que aproximam passado e presente, contidas numa energia que atravessa quaisquer barreiras. Os samples ajudam a construir uma identidade que duela entre a coletividade (a criação de aspectos musicais comuns) e a individualidade (o esforço criativo e as marcas de quem os lança hoje), revelando parte do que o jungle vem desenvolvendo nos últimos anos. O grande destaque é “Like The Thunder”, cujos vocais femininos se entrelaçam a uma linha instrumental saltitante, enquanto a atmosfera recorre a texturas ambientais, um ar carregado e uma distribuição complexa de todos esses elementos.



9. cabezadenego, Mbé & Leyblack: MIMOSA (2023)



MIMOSA é um projeto colaborativo entre os artistas Luiz Felipe Lucas (cabezadenego), com os beatmakers e produtores do Rio de Janeiro, Mbé e Leyblack. Lançado pelo selo QTV, um dos principais expoentes da música experimental em solo brasileiro, o registro é descrito como um “disco-manifesto sobre a potência dos ritmos afro-brasileiros”. E não é à toa. Aqui você encontra uma extensa diversidade de ritmos – mesmo que pareçam distantes entre si – interligados pela ideia de fazer um passeio pela música com raízes negras no cenário nacional. É interessante notar que, para isso, são utilizados alguns maneirismos, como a própria repetição do funk ou mesmo algumas distorções e fragmentos vocais que dão a ideia do álbum ser uma coletânea. Mas engana-se quem pensa que isso é ruim. Quando nos deparamos com um material como esse, a propriedade de quem o produz precisa ser levada em consideração. E nada mais justo do que ver esta síntese musical como um esforço genuíno para representar a evolução da música como produto artístico.



8. Bees: Hi Keke (2021)



Quando lançou Selected Ambient Works 85-92, Aphex Twin já se esgueirava pela formalidade com que acabara de classificar seu trabalho neste disco, cujo “ambient” no título tornava ainda mais puro o grafismo da música ambiente, o gênero, que ele e Brian Eno, anos antes, haviam reorganizado sob diferentes perspectivas da incursão de elementos da música eletrônica. Aphex Twin, um dos vários projetos de Richard D. James na época, unia-se à sua veia no trecho. Dessa expressão de união evoluiu o techno ambient, que, como o próprio nome sugere, carrega a carga do techno, o sentido industrial, mas também uma suavidade e introspecção muito exploradas e desafiadas ao longo do tempo. Hi Keke é uma sinuosa curva disso tudo, e este pequeno disco é um mundo à parte. O projeto é pequeno, enxuto, mas nenhum pouco limitado ou reduzido, pelo contrário: é um dos melhores discos do gênero, sobretudo por conter – e aproveitar como nenhum outro – suas características mais certeiras, como a suavização de suas batidas, que se repetem em loops tão harmônicos e doces, dispensando a agressividade do techno, que parecem fugir de muito do que já lhe fora imposto pelo tempo ou pelo ritmo.



7. Autechre: AE_LYON_070524 (2024)



É difícil escrever sobre qualquer coisa do Autechre hoje em dia. Dos fanáticos que já escavaram tudo em relação a eles – ou mesmo deles próprios, que já exploraram tanto – pouco parece haver a ser abordado. Ainda assim, há muito o que abordar, essencialmente porque a dupla se recusa a parar. O maior empreendimento deles nesta década é um compilado de apresentações ao vivo que duram mais de um dia, com performances em diferentes cidades, conduzidas por distintas abordagens da eletrônica de vanguarda que marcou suas carreiras. No melhor destaque está AE_LYON_070524, que conta com uma introdução aterradora, feita de abusos metálicos e ritmos que se aproximam de um padrão – melodias reconhecíveis e linhas de baixo altamente expostas –, algo que, para uma apresentação neste nível, choca pelo controle e pela precisão. O melhor de tudo segue sendo o clima: nebuloso, calmo e atravessado por picos acelerados quando convém. Dedicação inesgotável em fazer tão bem isso que não pode ser descrito.



6. Graham Lambkin: Aphorisms (2023)



Gravado em Nova Iorque e Londres, Aphorisms marca o retorno do lendário Graham Lambkin à cena. O seu estímulo assenta na colagem de sons e na extensão sonora da sua intimidade assustadoramente cotidiana, sendo o disco descrito como um avanço na missão idiossincrática do artista. Na verdade, é um material que perpassa as declarações de Lambkin: são acordes de piano e intromissões marcadas por palavras faladas, respirações e ruídos decorrentes de gravações de campo. Mas há muito mais do que isso, são percepções que só podem ser notadas através da experiência, sendo esse convite, de mergulhar na obra, um dos pontos mais interessantes de todos. Aphorisms, portanto, fecha como um retrato fiel dos detritos musicais de Graham Lambkin; uma obra produzida contrapondo a estranheza de suas sobreposições atípicas.



5. Various Artists: The NID Tapes: Electronic Music from India 1969-1972 (2023)



Nos arquivos do Instituto Nacional de Design, em Ahmedabad, foi encontrada uma coleção de música eletrônica indiana, datada entre 1969 e 1972, com resquícios do que havia de mais avançado, em termos estéticos – amostragem caseira, experimentos modelos com fragmentos vocais, ruídos e batidas contidos por fitas –, para o gênero na época. São peças que, embora simples, comportam uma variedade sem igual de experimentos analógicos e noções de ritmo e melodia que sequer pareciam existir então. É como uma escavação que evidencia aspectos nitidamente superficiais daquele contexto criativo, mas que se torna rica justamente por forçar interpretações – lógicas e ilógicas – sobre o que parte desse repertório simples, embora carregado de implicações historiográficas, têm a dizer hoje. No fim, desloca muito das bases pelas quais a música eletrônica ocidental costuma ser compreendida. É um achado de extrema importância.



4. Frankie Knuckles: RA.1000 (2025)



Frankie Knuckles é o nome mais importante da house music. Em 2025, para a série RA.1000, foram digitalizadas duas fitas, datadas de 1989 e 1996, que contêm um repertório inédito da lenda. O DJ mix apresenta quase duas horas de duração e percorre ritmos, amostras vocais, batidas e peças compostas que atravessam os anos 1980 e chegam aos dias de hoje com um verniz chocante de grooves e mesclas com tendências dance. Parece não existir. Os vocais de diva surgem entre guitarras funky. Dispensa a nostalgia: age frontalmente na memória do que se fundiu para criar a house music e, sobretudo, brilha com acenos importantes à comunidade queer, que, em sentido de identidade, ocupa as pistas nas quais esse som se perpetuou. Sua memória também é a nossa memória.



3. Onsy: Conc (2021)



É uma obra que desafia o silêncio, impõe regras próprias em sua amplitude e não tem medo de provocar efeitos diversos a partir de sua posição alucinatória de gerar melodias incríveis. Mostafa Onsy, produtor egipicio, transforma a pista de dança – ou a ausência dela, o éter que desenvolve em suas investidas pelo IDM – em um território de explorações dadaístas de design de som, tecendo algumas dos ritmos mais contrastantes e sombrios da década de 2020 até agora. Seu apelo parece atingir uma primazia de operar contra o descanso, com batidas que perfuram o ar na mesma força em que parecem subtrair o próprio entorno, como um vagão de trem sacudindo ao atravessar uma ponte de 100 metros de altura, enquanto pequenos blips tentam diminuir a angústia ao partir para um estado de minimalismo que passa longe de ser efetivo. Você, ouvinte, sente o frio na barriga. E então percebe que não há nada que lhe faça sentir o mesmo. É isso o que pode ser descrito pelo adjetivo “único”.



2. DJ Arana: Carreira Solo (2022)



É difícil resumir tudo o que esse disco representa para o funk da década de 2020. Não só pelo tom de renovação que causou na cena, mas pela maneira como construiu isso entre caixas de ruído seco, sirenes, batidas assombrosas, canto árabe, risadas fantasmagóricas, minimalismo e samples vocais usados como elo central das músicas. É um trabalho que surge justamente da conciliação entre vanguarda (aposta em ideias centrais no experimentalismo de gênero, na produção DIY que atraiu vários jovens para o funk) e desprendimento (produção de bolso, roubofonia). Muitas das ideias de composição que depois se tornariam essenciais no beat bruxaria aparecem aqui em estado bruto, principalmente no uso das acapellas e na forma como o DJ reorganiza vozes e fragmentos sonoros dentro de beats espaciais, atmosféricos e perturbadores. Existe uma visão quase dub do funk atravessando todo o disco, com músicas que funcionam menos pelo excesso e mais pelo vazio que causam (uma oposição completa ao funk que ecoava em diferentes espaços), pela tensão e pela sensação constante de colapso.



1. Chuquimamani-Condori: DJ E (2023)



Era de madrugada quando, após ver um filme, recebi através de alguns colegas a informação de que havia um novo álbum pronto para ser esmiuçado naquele momento. Estávamos avançando com as listas de melhores discos do ano, mas a insistência em ouvir DJ E permanecia borrando tudo ao nosso redor. Nosso, pois, assim como eu, outros colegas ficaram atônitos com o que este disco nos reservava. Tudo no coletivo mesmo, como grande parte das sensações que essa geração vem compartilhando em termos de como absorver a própria arte. Coletivo em sentido expositivo, mas extremamente individual como política e pensamento: ouvir, assistir a algo e mostrar que assistiu. Mostrar que ouviu.

E então dei play. DJ E fez o trabalho sozinho. O borrão da ansiedade por tê-lo, o disco, se intensificou, nada parecia surgir ou interromper o que eu estava ouvindo ali. Parece exagero, mas, assim que “Breathing” começa, e os fragmentos vocais alternados por batidas em diferentes tonalidades criam uma razão, a súplica desses mesmos fragmentos logo dá conta de nos distanciar ainda mais do mundo, deste mundo. DJ E é, apesar disso, um disco deste mundo. Em sentido conotativo, seu som, banhado a impurezas, parece colocar o mundo inteiro dentro do ouvinte. É muita informação. Força-nos a prestar atenção, a sentir um vazio ao mesmo tempo em que tudo parece se completar, se ajustar. É escrachado, besteirento, assim como somos. “Eat My Cum” assusta. Seu título é estranho, mas seu som é comovente, quase melancólico. Tremeliques atmosféricos, risos escrachados, ruídos empoeirados. A névoa parecia cada vez mais densa.

Assim como alguns discos desta lista, DJ E tem sua produção final – o suco que se pode extrair de tudo o que apresenta como música – fincada no guarda-chuva da música experimental. Seu processo, no entanto, vibra com as tendências da eletrônica (deconstructed club e ritmos latinos) que têm dado diferentes rumos para a vanguarda deste mesmo espaço na década de 2020 até agora. O trabalho de Chuquimamani-Condori não é recente, já que se divide entre diferentes estados de ser, materiais e formatos. É multimodal por natureza, e talvez essa seja uma das poucas vezes em que este termo pode ser usado em um sentido musical, pois este álbum em específico encontra enorme dificuldade em ser meramente ajustado a qualquer terminologia generalista.

E sentimos isso. Sobretudo pela figura e pelo humor que Chuquimamani-Condori carrega na própria significação de que manter atenção, de que se isolar em torno da música, de que esperar, sentir prazer e ansiedade para ouvir, é parte do seu rollout. Em “Engine”, DJ tags se quebram com o farfalhar de engrenagens, pois também é difícil se dedicar e se isolar sem tempo, sem qualidade de acesso (presos em escalas de trabalho exaustivas). É o capitalismo, é a noção coletiva de descobrimento que gera uma dependência de ter acesso às coisas que podem ser muito boas ou muito ruins, mas que são diluídas. Duram pouco. E é engraçado, pois nada aqui se dilui a partir do instante em que o play é dado.

No melhor momento do álbum, “Know”, tudo parece culminar. Acordes lânguidos organizam a transição entre uma sensação de haver sentido no aprisionamento e outra de liberdade. Poderia ser mágico, descrito assim, mas isso tiraria os créditos do que Chuquimamani-Condori faz. E, quando acaba, a névoa não se desfaz. Pelo contrário, pois ela fica, insiste em permanecer. Por tempo indeterminado. Segue até hoje, e não importa quantas vezes eu dê play nisso. Ela irá me esvaziar e preencher seguidamente. Todos deveriam experimentar, pois, além de haver inscrito nisso posições políticas e comportamentais, essa névoa é de afirmação. Um lembrete de que a música eletrônica tem esse poder humanizador. De que ela cresce através das condições que existem aqui. Do contexto presente, mas também do passado (o trabalho delicado com amostragem) e do futuro (máquinas). Acima de tudo, é um lembrete de que a música eletrônica é não branca (há ancestralidade indigena) e queer (e aqui se incluem a identificação, as certezas e incertezas de que nada nem ninguém fará algo assim). E acaba, mas não tem fim.
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