DJ ASEXUAL - DA GAME



8.2

Houve um momento, nos anos 90, em que a reprodução de sons sintéticos nas produções de hip hop passava inevitavelmente pelo crivo de algum DJ, e quanto mais singular fosse o seu trabalho, mais ele se destacava na criação de beats e nos processos de amostragem. Na cultura de DJ e sound system britânica, essa relação começou a ganhar novos contornos quando alguns passaram a misturar esse material – muitas vezes em estado quase puro – com a estética do gangsta rap.

O que havia de mais “puro” ali eram justamente os esqueletos e as ramificações do breakbeat: entre eles, o jungle, que também absorveu esse imaginário gangsta a partir da proximidade cultural entre DJs e o rap, ou seja, um cruzamento do qual emergiria o que passou a ser chamado de gangstep.

Mais do que a mistura de jungle com as manifestações urbanas e de rua do hip hop, o gangstep desenvolveu características próprias, como basslines muito distorcidas ou graves, além de sempre acenar para ambiências escuras e tensas, como se emulasse um contexto de beco e clandestinidade, com samples de filmes, sons de sirenes, tiros ou vocais com temática de rua, de batalhas.

Esse som, apesar de dominar muitos contextos – e escorrer principalmente na Costa Leste dos Estados Unidos –, foi caindo em desuso conforme noções mais futuristas da virada do milênio foram surgindo, e o que restou acabou se dissolvendo no drum and bass e em outras vertentes.

DA GAME, novo EP lançado por DJ ASEXUAL, se inspira nesse contexto para revitalizar o gangstep sob um olhar contemporâneo, atual no sentido de acentuar as características do estilo e retornar às suas raízes justamente no jungle. Mais do que isso, reina, neste curto enxerto de recomposição estética, uma visão que parte de um certo revisionismo positivo – se é que isso faz sentido – pois contém sobretudo uma realidade de produção queer.

A própria abertura, “DA GAME”, trata de acentuar a atmosfera urbana, versando as caixas com fragmentos vocais de rap cantados por uma voz masculina e vocalizações femininas esporádicas, num tom empoeirado que contrasta com a faixa seguinte, “MIND OF A LUNATIC”, com seus mais de sete minutos de duração imersos em um jogo sem fim de hardstep e versos que dosam algo romântico e delusional ao mesmo tempo.

DJ ASEXUAL sustenta a atmosfera noventista ao longo de toda a duração. O que elu faz para conseguir isso, aparentemente, é muito simples: evitar cair fora dos breaks moldados para estourar nas caixas de som, aspecto primordial dessa união do jungle com a estética gangsta. E, por mais que pareça simples, de fato não é.

Há um controle absurdo de ritmo, de composição do tempo – onde, nos sete minutos, o sample vai entrar ou sair – que serve não apenas para nos situar e nos emergir, mas também para lembrar de onde e de que maneira parte de algumas das abordagens mais interessantes do jungle de hoje.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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