
7.2
A centralidade narrativa tanto no funk quanto no hip hop sempre foi masculina, falocêntrica. Embora a presença feminina tenha crescido nesses espaços, a hegemonia do hedonismo seguiu voltada ao prazer masculino. Bia Soull, como muitos já devem saber, propõe justamente o oposto disso em seu álbum PORNOGRAFIA AUDITIVA, que não apenas desmonta esse controle exacerbado da putaria masculina, como também torna evidente a maneira de fazê-lo.
É por isso que o álbum percorre, de certa forma, o cenário que representa o funk, com ela criando acapellas diretas sobre a satisfação feminina, em posição de controle mesmo, e o hip hop. É como se dividisse em dois, com convidados de peso dos dois estilos que conduzem o álbum, que é cheio de ótimas sacadas em torno das contradições do que a presença feminina em termos eróticos pode significar, como em “Menage”, com IKNOWFELIPE e Mello Santana, em que o desejo de controle da figura masculina é questionado diante do ponto de flexão sexual, até onde esse controle vai quando se tem mulheres o conduzindo?
Essas colocações aparecem, muitas vezes, através de vocais mais suaves e batidas minimalistas (“Óleo de Coco”), que podem assumir tons de referência ao funk de BH, um dos mais explicitamente hedonistas, embora historicamente comandado por homens. A todo instante, o som é ajustado para acompanhar os vocais de Bia Soull, sua forma de cantar, às vezes em tom maior, às vezes em menor; às vezes rápida, às vezes lenta. Ela também é uma ótima cantora.
Há um deslocamento interessante aí. No funk, a acapella pode até ditar o som, mas é o DJ quem determina, estruturalmente, qual elemento tomará a frente. Aqui, mesmo cercada por DJs incríveis, é Bia quem assume o controle de tudo, quem conduz aquilo que a música, como produto final, buscará dizer enquanto meio de perpetuar os temas explorados. E é justamente aí que entra a parte lírica. As letras são muito inteligentes e, sem exagero, chamam atenção justamente por serem refrescantes. Estamos entulhados de letras masculinas repetindo incessantemente as mesmas ideias de sexo e prazer, e isso precisava de uma resposta à altura.
Veja o nível de descrição presente em “Viciada”, com CARLO, em que Bia constrói, em detalhes, uma contraposição sexual não cis-heterossexual, com trechos como “Cortei minha unha pra encontrar essa puta / No teu ouvido sussurro palavras sujas / Por essa noite minha buceta vai ser sua / Dois dedos na xota, lingua no clitoris / Indicador e do meio, massageio o ponto G”. Tudo isso torna evidente um tipo específico de reação capaz de despertar e manter o prazer sexual em pessoas com vagina. É, por completo, um afrontamento.
O ritmo e a intensidade de PORNOGRAFIA AUDITIVA diminuem nos instantes finais, principalmente pela inclusão mais incidente do hip hop. Bia segue trazendo contraposição ali, mas o som já não se aproxima tanto do vernáculo hedonista que o funk representa, de suas batidas e de tudo o que é gerado a partir dessa junção.