7.4
Tem sido estranho acompanhar o funk em 2026. Mesmo ouvindo uma quantidade gigantesca de lançamentos dos quais eu acabo não escrevendo, tenho a impressão que pouca coisa têm conseguido gerar alguma impressão que fuja da mesmice que se tornou as vertentes do mandelão, como o bruxaria. Alguma vez eu escrevi que o funk muda muito rápido, que dentro de um ano muita coisa nova surge e muita coisa deixa de surgir, some, desaparece.Desde meados do ano passado, o gênero tem sido perturbado por uma tendência um tanto estranha: o funk submundo. É meio óbvio que esse funk se tornou mais sobre a festa Submundo 808 do que, de fato, um funk que remete a ideia de submundo – mundo alternativo, como era antes – e por isso trata-se de vertentes maiores se curvando a um estilo que parece feito apenas pra ecoar entre um público viciado em viradas, drops e uma dezena de elementos que compõem um funk cada vez mais distante dos bailes, da rua. Um funk interessante, mas confinado, preso.
Essa tendência, apesar de se espalhar como um vírus, não conseguiu atingir com firmeza apenas um nicho: os DJs da ritmada. E a explicação é bem simples. A ritmada é o estilo do mandelão que mais se aproxima de um midstream e até do mainstream. Usa ideias de experimentação diferente do bruxaria, que é naturalmente mais barulhento, enquanto a ritmada é mais melódica, dado sua base principal posta em ritmos percussivos. A ritmada, apesar de muitas vezes ser tão experimental quanto qualquer outra vertente do funk – lembre de nomes como RD DA DZ7 e DJ Guina –, sempre manteve suas ambições dentro do espaço em que fez parte, sobretudo por ter um público que sustentou uma certa rivalidade com outros estilos, inclusive os mais ruidosos, na cena paulista.
Esse comportamento, de certa forma, protege a ritmada de momentos como o que estamos vivendo, e lançamentos como No Clima da Sul, do DJ Erik JP, soam ainda melhores justamente por irem na contramão do que a maioria de seus pares está fazendo. Isso nos faz pensar que se, caso fosse lançado há uns três ou quatro anos atrás, este álbum não soaria tão original, vez que uma das principais características da ritmada é justamente a proximidade com sons e ideias mais acessíveis do funk, e por isso corresponde a uma lógica mais generalista de consumo dentro do gênero. Com o bruxaria atualmente tomado pelo mais do mesmo, isso se inverte.
Não dá para pressupor que No Clima da Sul, devido a este contexto, não seja, por si só, um excelente álbum, pois de fato é. No grande destaque, “Mega Atabaque do Vuk”, com Mc Vuk Vuk, os elementos percussivos são construídos a partir de instrumentos que dão a impressão de serem orgânicos, tocados e captados, e posteriormente manipulados para a estrutura dos megas. Claro que não é, pois o atabaque aqui é apenas um efeito de som, mas DJ Erik JP o manipula tão bem, que fica impossível não crer num processo manual de composição – é ainda mais interessante devido ao fato de a ritmada ter raízes em religiões de matriz africana, então essa organicidade é parte essencial do vocabulário do estilo em questão.
Já em “Mega Cavaquinho Baco Baco”, com DJ Tubarão ZS e Mc Vuk Vuk, o DJ repete a forma de tocar o instrumento, dessa vez o cavaquinho, mas vai além, vez que a faixa retoma o funk rasteirinha, a maior tendência do mainstream a partir da metade da década de 2010, mas que aqui passa por uma abordagem estritamente atual, com amostragem próxima do que artistas do bruxaria igualmente já usaram (baco baco).
E, assim como em SELVA DE PEDRA, do DJ Gomes Original, a presença do DJ Guina, principal nome da ritmada hoje, é o suficiente para elevar o nível de tudo o que é apresentado ao longo do álbum. Na faixa “Mega Climatizante - Ruinha X Rde”, com Mc Tevez, a tonalidade do som diminui e as batidas assumem um tom mais minimalista, abrindo espaço para um tom seco, típico da linguagem do DJ Guina. É um dos melhores momentos do álbum, pois também mostra que DJ Erik JP tem uma visão de curadoria, de escolhas mesmo, muito importante para um estilo que vem dando sentido ao funk, que não se prende, que não se limita a tendências.
