Mohamed Bourouissa - LILA



7.2

Nos livros de Annie Ernaux, os personagens não recebem nomes, por mais importantes que sejam; apenas suas iniciais aparecem como parte de sua descrição e identificação na obra. Esse foi o método que a escritora utilizou para conferir profundidade ao seu estilo, conhecido hoje como ficção autobiográfica. Mohamed Bourouissa faz algo parecido em LILA, vez que cada faixa carrega as iniciais do nome de alguém com quem ele se relacionou ao longo de sua vida, e cuja lembrança esteve com ele enquanto produzia o álbum.

A diferença é que nada aqui parece partir de um sentido ficcional; pelo contrário, tudo é muito real, às vezes tão cru que chega a causar sensações ambíguas demais, como na faixa “MG”, com Le Diouck, em que vocais distorcidos, modificados, parecem duelar com efeitos de baterias que vão, aos poucos, crescendo conforme as melodias se tornam cada vez mais emotivas. Parte dessa sensação é cultivada em todo o álbum, dada sua atmosfera que pega alguns maneirismos da música ambient – mesmo quando se aproxima de estruturas pop – para explorar o quão profundo são os sentimentos de Bourouissa, conferido em cada faixa, que simboliza cada pessoa.

Em “MN”, essa forma parece atingir um nível maior de catarse emocional. A faixa surge com acordes simples de cordas, mas logo é tomada por batidas violentas, costuradas por uma textura industrial seca e ao mesmo tempo porosa, fazendo com que os vocais, soterrados pelas batidas, se tornem cada vez mais irreconhecíveis. Confusos. É o ponto alto do disco, pois parte de uma frieza estética que pode até remeter a qualquer coisa do IDM recente, mas consegue ter personalidade o suficiente para contrapor semelhanças.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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