Ana Roxanne - Poem 1



7.9

No EP ~~~, de 2019, Ana Roxanne havia criado o alicerce sobre o qual sustentaria toda a sua abordagem musical. O disco havia sido lançado originalmente anos antes, mas permaneceu desconhecido pela internet até ser relançado pouco depois, expondo não apenas a forma como Ana enxerga esse tipo de questão, o próprio lançamento, mas também aquilo que fazia: sua música. Ela seguiu por um caminho parecido – em ambos os sentidos – em Because of a Flower (2020), e cada vez mais parecia aprofundar suas explorações no ambient, influenciada por técnicas experimentais de composições assimétricas através de instrumentos convencionais, drones e gravações de campo.

Em seu novo álbum, Poem 1, Ana mantém parte do que cultivou no passado. Dessa vez, porém, seu som parte de ideias mais acessíveis. Sua voz agora parece servir como acompanhamento para seus toques delicados, como acontece em “Berceuse in A-flat Minor, Op. 45”. Essa diferença, perceptível pela formalidade com que compõe não apenas os sons, mas também suas letras e a própria organização instrumental, surge igualmente de uma nova noção de exposição dos sentimentos causados por um término. De certa forma, ela utiliza sua voz e, da maneira como faz isso, cria no imaginário de quem a acompanha uma abertura para novas formas de expressão.

É comum notar esse movimento quando artistas de música experimental e eletrônica instrumental começam a operar de forma profundamente diferente, aproximando-se de estruturas mais associadas a vocalistas já estabelecidos. E é justamente por isso que Poem 1, em muitos momentos, soa atrelado demais a formatos que antes não faziam parte do léxico de Ana. Em “Keepsake”, por exemplo, essa mudança se torna evidente. Ela canta os versos com tanta força que passa a impressão de estar fazendo algo que sempre fez. Mas, logo na sequência, “X” faz o passado retornar, com um drone que calmamente se espalha por todos os segundos da faixa. É um dos momentos mais lindos desse novo tempo de Ana Roxanne.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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