
10
A primeira coisa que imaginamos quando ouvimos falar em Selected Ambient Works 85-92 é que este é um álbum profundamente imerso na música ambiente, nos moldes daquilo que temos como repertório: estágios de silêncio atmosférico ou um drone fleumático. Trata-se de um risco temático e comercial, considerando o fato de ainda causar esse tipo de impressão até hoje. É, no entanto, uma peça que precede a justa e conhecida mistura entre eletrônica e ambient, que logo ganharia uma força incisivamente única em Selected Ambient Works Volume II, de 1994.É, portanto, o começo de tudo aquilo que tornaria Aphex Twin o projeto mais importante dos espaços eletrônicos que ganhavam novas formas no início dos anos 90. Irônico, por um lado, pois está longe de estabelecer um paradeiro definitivo para os limites do que se entendia como eletrônica e música ambiente. Esse tipo de confusão foi justamente o que deu forma à linguagem dos projetos de Richard David James e o que faz deste disco, em específico, sua maior marca (estética e visual, inclusive). Tanto que suas incursões no techno e no IDM já continham aqui a fórmula, a planta e a receita daquilo que, até os dias de hoje, segue sendo um aceno ao que ele criou nesse passado já um pouco distante.
Não seria exagero, por isso, citar este como um dos discos mais influentes da música contemporânea, sobretudo na busca incessante por novos meios de propagação que a música eletrônica vem empreendendo desde que novas técnicas de composição – digitais, por exemplo – passaram a servir também como recurso narrativo e temático desse futurismo quase utópico que o gênero contém. Ou seja, essa capacidade de fazer o ouvinte, ao mesmo tempo, dançar e triturar os neurônios com batidas corrosivas e deliciosamente divertidas. Este é o disco das pessoas descoladas de hoje. O logo tornou-se uma das peças gráficas mais icônicas de todos os tempos. Virou tatuagem. Virou corte de cabelo. Criou, a partir dele, também, em muitos casos, uma noção de Aphex Twin que simplesmente não existe.