Boards of Canada - Inferno



5.8

A ideia de que estamos vivendo o inferno aqui na terra não é, necessariamente, o centro temático do primeiro álbum do projeto Boards of Canada em 13 anos, mas poderia ser. O disco predita uma abordagem sobre religião, mas não é religiosa. É uma investida cética, e seu som reproduz muito bem isso: é insosso, preso em padrões que se repetem do começo ao fim, não como artefato estético, visto que caminha para uma variação disso no uso de instrumentos naturais e religiosos, mas como falta, ausência, de uma abordagem que soe menos rígida.

Dá a impressão de que, de alguma forma, BOC parou no tempo. O grande adorno do álbum é a sua veia analogica, com adereço postado em fitas VHS e divulgação a moda antiga, como eles faziam no passado – então há aqui um preço alto de saudosismo. É, porém, um tanto estranho pensar que, por mais sofisticado em termos do próprio espaço que ocupam na música eletrônica, com feitos incríveis e que não devem ser ignorados, Inferno parece mais um versão instrumental e meditativa do último álbum do Gorillaz, The Mountain, do que qualquer coisa.

É cômico como, de forma distinta, esses temas que brincam com a filosofia da religião, sem de fato adentrar nelas, acabam criando uma ponte entre as representações que hoje são muito atrasadas. O tom meditativo das interlúdios é exatamente o que dita esse atraso, não por ser previsível usar texturas fixas de ambient nessas faixas, mas porque dá a impressão de ser algo tão banal, tão caricato…

As faixas que ocupam o centro do álbum, como “Prophecy At 1420 MHz” e “You Retreat In Time And Space”, assumem essa posição justamente porque conseguem dosar muito bem o choque entre as figurações temáticas e o som. A segunda conduz sua reflexão de forma profunda e estabelece uma diferença gigantesca em relação ao restante do disco, que realiza um trabalho de amostragem cru demais, como se o interesse no uso desses samples fosse apenas encaixá-los em alguns dos mesmos toques de bateria e sintetizador analógico cuja função é simplesmente expelir psicodelia.

O problema é que, mesmo havendo um trabalho técnico que faz o som soar sofisticado o suficiente, Inferno tende a querer ser imersivo em excesso, como se tentasse provocar uma experiência que, no contexto do lançamento, acaba não fazendo sentido. É semelhante ao Coldplay tentando convencer as pessoas do quão “evoluído” é ao trazer uma abordagem cósmica e supostamente densa para um som que, no fundo, continua tratando de uma filosofia humana bastante comum. A diferença é que o Boards of Canada acaba sendo ainda mais literal nisso, e esse é justamente o problema. Sobretudo porque o resultado é um disco monótono, excessivamente cósmico e até brega em alguns momentos, recheado de distorções vocais, percussões ritualísticas vazias e batidas que não alcançam o epicentro de ritmo complexo e design de som inovador pelo qual sempre foram conhecidos.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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