TA1DA - BASS CULTURE


8.1

As caixas de “RESPECTFULLY”, que introduzem o EP BASS CULTURE, de Ta1da, podem até ser facilmente reconhecíveis no contexto de estéticas mais próximas do drum and bass e de técnicas de breakbeat que dominaram a metade dos anos 90 na música eletrônica, mas, no meio da música, tudo muda abruptamente com o acréscimo de elementos mais cartunescos, fragmentos melódicos mais dançantes e bumbos que saltam em velocidade praticamente irrastreável.

Esse foco que Ta1da dá aos elementos percussivos decorre da própria narrativa do EP em condensar ritmos que segmentam esse espaço. É por isso que há aqui o flerte constante com estéticas que derivam justamente desse espaço pós-noventista de eletrônica, como o baltimore club e o jersey club. A cola que une esses estilos – e a forma como o artista os utiliza – é o jungle. Sim, talvez seja informação demais, e é. Por isso o EP se chama BASS CULTURE, como um passeio quase completo que atravessa o ponto em comum de gêneros que compartilham certa familiaridade.

“HOMING DEVICE”, por exemplo, percorre texturas líquidas enquanto mantém uma linha de baixo submersa em ritmos que se quebram com uma facilidade assustadora e, mesmo assim, soa puramente atmosférica, quase lenta. É o completo oposto da sequência “LEG DAY”, cujo tom mais agressivo depende instintivamente dos samples para soar mais melódico e não romper com o restante do que o EP vai, aos poucos, construindo. “GIRLS”, por sua vez, aposta na repetição vocal e na velocidade mais potencializada dos BPMs do baltimore club, que giram num loop cadenciado por padrões de bateria que se espalham em diferentes direções, mantendo-se sempre no jungle e suas ramificações.

Ta1da deve ter plena consciência do que faz aqui, porque misturar linguagens que nasceram quase como antagonistas uma da outra (o baltimore club e o jersey club), e fazê-lo por meio de uma prensa com o “pai” do drum and bass, beira o fascínio pela batida, pela quebra e pelo choque que caixas e samples podem proporcionar na criação de algo que chama atenção pelo quão sintético, mas também nostálgico, pode ser. Sobretudo, trata-se de uma homenagem aos DJs e produtores que fomentaram cada um dos gêneros que ele aqui faz convergir como se fossem apenas seus. É cansativo ver alguns artistas realizarem esse tipo de passeio quando estão sem criatividade, mas Ta1da faz justamente o contrário: retorna aos seus antepassados para mostrar o que há, hoje, de relação e proposta de inovação em estilos que, de certa forma, já foram canonizados.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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