Thaiboy Digital & swedm® - Paradise



7.9

Existe uma linha tênue no fato de um artista partir rumo a uma abordagem diferente de tudo o que já fez, uma divisão entre: 1) a vontade de, de fato, se envolver com algo novo, movido pelo desejo de explorar; e 2) a tentativa de converter o ouvinte, e a si mesmo, de que é capaz de fazer algo diferente. E é justamente do choque entre essas duas possibilidades que surge o resultado, positivo ou negativo. Felizmente, Thaiboy Digital opta pela primeira opção, e o resultado não poderia ser nada menos que positivo.

Seu novo álbum, desta vez em parceria com o coletivo swedm®, é uma exploração inusitada, seja dentro de sua própria carreira, seja pelos meios que escolhe utilizar, de estéticas reminiscentes da combustão EDM que se perpetuou em meados dos anos 2000. Há muito trance e electropop, mastigados para cumprir suas próprias ideias de pista, e é aí que tudo fica ainda mais interessante. Como membro da drain gang, Thaiboy nunca conquistou a mesma atenção em sua carreira solo que outros nomes do grupo, como Bladee, que criou um verdadeiro culto em torno de si mesmo.

Thaiboy Digital, ao contrário dos outros também, hoje vive em sua terra natal, a Tailândia, distante do desenrolar de movimentos que, de certa forma, ajudou a criar na Europa, e especificamente na Suécia. Talvez por isso seu desejo de explorar algo novo parta justamente de uma ideia de direcionamento igualmente distante do que fazia anteriormente. Esse distanciamento não é efetivo, é claro. 
Em “Dreaming Your Reality”, ele canta como se rimasse em versos que caracterizavam, no passado, seu pé no hip hop. O álbum inteiro parece partir dessa estrutura, alternando momentos de rap que combinam perfeitamente com instantes mais cantados e moldados de acordo com as batidas explosivas, é o caso da sequência “Solitary”, em que permanece também sua lembrança temática.

Mas é nas batidas que Paradise se engrandece. “Come True”, por exemplo, parece vir diretamente de 2005, com um crescendo de tensão típico do trance, em que se desenrolam vocais atmosféricos enquanto tudo se fragmenta em BPMs que viajam pela secura do four-on-the-floor. Outro destaque é “Irish Tears”, com Bladee. A faixa opta por caminhos mais atmosféricos em sua explosão mecânica, sustentada por uma batida mais lenta que o normal, mas extremamente contagiante. Os versos de ambos se encaixam perfeitamente nesse experimento que remete ao melhor da drain gang.

Já no ponto alto de Paradise, a faixa “Christian Louboutin”, Thaiboy evita se conter. As batidas deixam de ser apenas nostálgicas e passam a ser efetivas em sua estruturação revisionista do EDM. Tudo ferve em explosões acompanhadas de repetições que firmam seu sentido estético, organizadas por uma ponte que não víamos desde o auge da febre nightcore. 
É a explicação plena de sentido para a criação de um álbum como esse, e ele só consegue fazê-lo funcionar porque possui coragem suficiente para brincar com marcas sonoras, ou melhor, perturbá-las até arrancar delas uma contração própria de ritmo e estilo.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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