ABADIR - The Primitivist



7.6

“Se eu tiver que escolher entre futurismo ou primitivismo, prefiro ser um primitivista”, exclama Rami Abadir. O produtor musical, designer de som, DJ e crítico musical nascido no Cairo, Egito, e radicado em Berlim, Alemanha, tem uma visão muito clara do que, para ele, a música eletrônica se tornou ao ser recheada de ideias fundamentadas no futurismo como reconstituição estética. É como se quem adentrasse esse futurismo estivesse quase sempre disposto a ignorar as questões do presente, os problemas de hoje que impactam profundamente a cultura.

Esse pensamento está muito bem refletido em seu disco The Primitivist, lançado pela Planet Mu. O material funciona na mesma chave da melhor música feita atualmente: aquela que se volta para as próprias raízes e cria, a partir delas, sons e estilos que as adornam e transformam. É como se Abadir construísse uma série de explorações em escolas de percussão e ritmo construído pela intensidade das caixas que se espalharam pelo mundo no final dos anos 1990, como o jungle e o footwork, mas o fizesse a partir de elementos locais, sobretudo pelo uso extensivo de padrões rítmicos oriundos de uma visão egípcia do maqsoum.

É intrigante o que ele faz a partir disso. “Habban”, por exemplo, parece comportar uma dezena de elementos folclóricos que são, de certa forma, naturais: gritos expressivos que antecedem o ritmo, como uma celebração, além de percussões ditadas por tambores e chocalhos. A partir desses elementos, ele trabalha a lógica rítmica do jungle, com baterias concebidas através dessas mesmas instrumentações. Não é como o jungle futurista, cujas batidas são, em certo sentido, indecifráveis justamente por se comportarem como sons que parecem não existir no presente. O jungle primitivista de Abadir é tão existente quanto palpável, atento e tátil.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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