Kelsey Lu - So Help Me God



6.7

É difícil chegar a este disco sem compará-lo a outras obras recentes da música pop que miram numa espécie de sofisticação musical construída através da expansividade: expansividade nos arranjos, expansividade nos visuais, expansividade na composição lírica. Tudo tem sido tão expansivo ultimamente que, até certo ponto, essa expansividade se tornou banal. É o caso de álbuns como LUX, de ROSALÍA, e THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE., de RAYE.

So Help Me God, no entanto, ainda se expande por uma via mais natural. A expansividade existe, de fato, mas são nos momentos em que os vocais de Kelsey Lu se sobrepõem ao som, como em “What Can I Do”, uma das peças mais simples, modestas e eficientes do álbum, que percebemos que ela tem mais a oferecer do que apenas uma construção musical grandiosa, feita para deixar qualquer um de boca aberta.

O que impressiona aqui é a emoção, transpassada em seus vocais, nas pausas, no som leve ao fundo criando uma ambientação à la Björk em Utopia. O mesmo vale para a sequência de “Running To Pain”, em que Lu ajusta sua forma de cantar – mais rápida, mais próxima de um padrão pop; eu imagino Julia Holter interpretando muito bem essa música – e que, justamente por ser mais acessível e contar com uma virada surpreendente, acaba chamando atenção. É o tipo de música feita para soar explosiva, emocionalmente inquieta. “When you come in and wreck my life / I can't with you / You're smooth like a jagged knife / I can't with you”, canta ela no pós-refrão, em plena catarse.

Apesar de oferecer respiro mesmo diante da intensidade com que tudo é organizado, So Help Me God ainda parece se aproximar dos exemplos de expansividade banal citados anteriormente. Esse momento atende pelo nome de “Reaper”, que conta com os dedos de Kamasi Washington, cada vez menos inspirado quando chamado para compor algum instrumental batido, com as mesmas notas, os mesmos tons, as mesmas melodias e, por fim, a mesma coisa que vem fazendo desde sei lá quando. Por causa dele, a faixa passa a impressão de tentar forçar uma credibilidade que Lu simplesmente não precisa. E o álbum, embora comece flertando com esse tipo de recurso, logo mostra que ela tem muito a oferecer sem depender dele.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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