Yin Sno - Rudra



8.0

Há algum tempo, escrevi um texto em meu Substack pessoal comentando sobre como uma pequena parcela, embora bastante chamativa, da chamada música eletrônica brasileira tinha dificuldade de andar com as próprias pernas, no sentido de se desvincular de referências depositadas em artistas como Arca e SOPHIE. Gostaria de deixar claro que são excelentes referências, duas artistas que mudaram não apenas a música eletrônica, mas o pop em si.

A questão central desse apontamento, porém, está no empobrecimento de certas produções ao longo do tempo, na tentativa de brincar de produção musical – e aqui entra uma questão de responsabilidade – e no fato de nunca criarem nada de fato, apenas replicarem. Depois disso, na minha lista dos melhores discos de música eletrônica da década, fiz questão de citar produtores que fazem parte desse espaço bastante independente, mas que, ao contrário da maioria, se arriscam a criar algo próprio diante de suas referências. É o caso de nomes como DJ Rosa, Naves Cilíndricas e, é claro, Yin Sno.

Nota-se, nesses artistas, uma vontade intrínseca de trabalhar formas de eletrônica que vão além, por exemplo, dos gêneros-chave utilizados pelos produtores que gostam de brincar de ser Arca e SOPHIE, no caso, o bubblegum bass. O novo álbum de Yin Sno, Rudra, opera justamente na dianteira de uma produção que flerta com estilos club distantes do óbvio, mas que também dá a impressão de trabalhar esses mesmos estilos a partir de uma abordagem fincada na realidade artística da já citada eletrônica brasileira. Mais do que isso, porém, Sno se preocupa com a atmosfera, a textura e o ritmo que cria.

Por isso, em momentos como “Omg Is Like Lucas Like Okay Like”, as batidas cedem espaço para tons meditativos e líquidos, sustentados por uma espécie de drone submerso que mantém o pico de suas notas ao lado de outros elementos, acompanhado por pequenas ruminações ambient perturbadoras demais para serem apenas drone ou apenas ambient. É um tipo de som – uma abordagem estética dos equipamentos e das técnicas da música eletrônica em diálogo com a música experimental – que está tão à frente de tudo nessa cena que chega a soar distante, quase externo a ela.

Em “Nrz.xlsx”, o tom meditativo é confrontado por padrões de bateria secos, que vão diminuindo de volume até desaparecerem completamente, abrindo espaço para texturas eletrificadas, uma espécie de percussão conduzida por cordas, que também acaba se dissolvendo. É como se três ou mais ambientações se cruzassem dentro de um design de som que se orgulha de soar bagunçado, pois, em pouco menos de cinco minutos, cria uma barreira sonora com tanta personalidade que chega a desafiar a si mesma.

Rudra avança gradualmente até o fim, dosando o ritmo de batidas ligeiras com tons e ambiências apoiados numa filosofia de alternar a tranquilidade de timbres meditativos com a tranquilidade de sons mais ruidosos. É difícil saber se essa foi exatamente a intenção de Sno, visto que o próprio nome do disco – um dos nomes do deus Shiva – e alguns de seus momentos remetem aos escritos sânscritos de proteção espiritual e conexão divina.

A faixa que melhor percorre esse caminho, não apenas por se opor a certa literalidade, mas pelo próprio sentido em que é construída, é “Paduana”, que flerta tanto com estruturas dub quanto com formas mais pop do house, também contemplativas e bastante distantes do progressivo por mais densas que sejam. Consequentemente, é o ponto alto do disco, não apenas pela formalidade – e pela maneira como encaixa os fragmentos vocais ligados à linguagem do internetês –, mas também pela técnica, pelo efeito que gera, pelo desprendimento de referências, por soar igual e diferente ao mesmo tempo daquilo com que se parece. E é exatamente disso que a música eletrônica experimental, independente e feita no Brasil precisa hoje.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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