As melhores músicas de Kelela



Como preparação para new avatar, próximo álbum de Kelela que chega no dia 10 de julho, reuni as dez melhores músicas da artista. A seleção percorre os principais momentos de sua discografia e destaca faixas que ajudaram a consolidar a sua identidade sonora e que também expandiram as possibilidades de estilos como R&B alternativo, eletrônica e música pop contemporânea. Trata-se, portanto, de um passeio pela obra de uma das melhores e mais interessantes artistas deste século – sem exageros.

10. “A Message”

Uma das melhores faixas de abertura já feitas, “A Massage” é bastante simples em sua narrativa sobre pós-término. O que a destaca na carreira da artista, no entanto, são os elementos que residem em seus arranjos densos, no grave que sustenta uma certa frieza que torna a atmosfera criada por Arca cada vez mais prolongada, espacial. É um contraste quase surreal com a voz suave de Kelela.

9. “Happy Ending”

As batidas aceleradas que introduzem “Happy Ending” não resultam exatamente na explosão rítmica violenta que se poderia esperar. Na verdade, o ritmo da faixa é contido pelos vocais calmos e pela atmosfera etérea, percorrendo uma linha de breakbeat quase perfeita, voltada para uma expressão mais downtempo, o que torna a gerar uma estrutura que combina perfeitamente com a letra e a sensibilidade pop que Kelela impõe à faixa em Raven.

8. “Take Me Apart”

“I am a river / And this river's slowing down / Know where you'll wind up / Cross my water 'til you drown”, canta Kelela em “Take Me Apart”, faixa-título de seu álbum de estreia lançado em 2017. Co-produzida por Arca, a música é emoção em estado bruto, com foco no desejo pelo novo e no desejo físico. Sua mistura de vocais de matriz R&B com texturas eletrônicas que passeiam diferentes frequências de graves e subgraves funciona, aqui, como parte essencial da expressão de Kelela sobre o amor.

7. “Raven”

“Raven” cresce aos poucos. Leva tempo até que algo aconteça. Bobo é quem espera imediatamente por esse acontecimento e, por isso, não aproveita os instantes anteriores à quebra instrumental club que transforma completamente o ritmo da faixa. É justamente aí que entra a questão das expectativas, porque a faixa-título do melhor álbum de Kelela também trata da maneira como a artista, neste trabalho, buscou abordar aspectos da música eletrônica que antes pareciam existir apenas enquanto mistura ou condensação. Aqui, apesar da diversidade de estilos, tudo se funde sem maiores prescrições.

6. “LMK”

O barulho angular, industrial, que ecoa como pano de fundo de “LMK” insiste tanto que chega a ficar enjoativo, é tão repetitivo que você precisa procurar outro elemento para focar, e é justamente aí que a faixa se torna outra coisa. É uma síntese perfeita de Take Me Apart e sua exposição crua do R&B alternativo que Kelela havia criado como noção desde que começou a ficar sua abordagem definitiva no gênero. Mais do que tudo isso, é uma faixa incrível em termos de construção pop, com picos instrumentais que vão guiando o refrão até atingir o seu ápice em diferentes momentos, aproveitando as tonalidades melódicas que vão surgindo no decorrer da sua duração.

5. “Bruises”

Uma das peças centrais de Raven, “Bruises” é também uma das faixas mais criativas de Kelela no terreno do experimentalismo de gênero. Isso porque dispõe de uma estrutura pop – perceptível na forma como canta e repete os versos “Find another way” com sua voz atmosférica – sustentada por um ritmo em constante tensão, que flerta com aspectos vindos do minimal techno, com batidas esparsas, uma melodia ditada por um loop de sintetizador e inferências pontuais de uma marcação grave, uma batida que parece perfurar toda essa estrutura. Enquanto isso, Kelela parece somar seus temas, amontoar uma letra sobre a outra, criar uma subida contínua que desemboca no nada. E é justamente por isso que a faixa é tão poética.

4. “Rewind”

Eleita a quarta melhor faixa de música eletrônica deste século até agora pela revista Resident Advisor, “Rewind” é de fato um top tier na carreira de Kelela. Sua base rítmica viaja pelo atlanta bass enquanto Kelela parece acompanhar o ritmo com seus versos que assumem um caráter percussivo, dialogando com cada virada, cada batida que surge ou que se esvai nos quase quatro minutos de duração. A música, é o exemplo mais didático do flerte de eletrônica e pop que Kelela promoveu ao longo da sua carreira, sobretudo pela narrativa amorosa tão latente quanto insaciável. “Since that day you're all I think about”, é a introdução perfeita.

3. “Onanon”

“Onanon” é extremamente complexa. Sua estrutura brinca com batidas que se fragmentam através de um padrão quase exato, enquanto Kelela vai aos poucos, com sua voz, criando um ritmo tão grudento quanto diverso, com variações melódicas que se repetem apenas quando explode em pré e pós-refrão. É, assim como outras dessa lista, co-produzida por Arca, e é possível notar aqui, mais do que nunca, as marcas da venezuelana, essencialmente na ambientação pseudo-psicodélica, com vocais distorcidos e batidas alienígenas.

2. “Contact”

Grande parte das músicas desta lista se constrói a partir de ritmo, versos, vocais e de uma atmosfera que não pode ser comparada à de nenhum outro nome que despontou no chamado R&B alternativo, uma vertente que pressupõe justamente essa fórmula de misturar gêneros, estilos de pop e música eletrônica com bases no R&B e no soul. “Contact” é um dos exemplos perfeitos disso, dessa condensação. É a música mais sexta-feira à noite que existe, pois não apenas cria essa ambientação noturna, como também vem acompanhada de um sentimento puro, de um desejo de viver, de referências a saídas e à pista de dança. Suas batidas, sustentadas por loops de bateria e caixas secas, parecem aprisionar nossa mente enquanto tentamos decifrar o ritmo. É surreal.

1. “All the Way Down”

Existem músicas que vão te acompanhar pelo resto da vida e não importa o que você faça, elas continuarão existindo, fazendo você se lembrar de pessoas e situações que viveu. Como toda escolha é arbitrária, esse fato por si só já seria suficiente para eu considerar esta a melhor música de Kelela. Mas “All the Way Down” vai muito além daquilo que, individualmente, posso pensar. É uma música perfeita nos termos mais literais: seu ritmo é fácil de absorver, sua letra em tom de súplica consegue capturar a atenção de qualquer um, e sua estrutura resume perfeitamente aquilo que Kelela inicialmente planejou fazer quando lançou Hallucinogen, em 2015.

“I'm doing things that I don't do / So comfortable when I'm with you”, canta ela em um dos momentos que melhor descrevem a faixa. Trata-se do envolvimento, do abandono de regras desnecessárias quando se vive um amor com alguém diferente, alguém mais novo, acompanhado daquela sensação constante de medo, de se arriscar sabendo exatamente quais riscos se corre. É uma música sobre se jogar, sobre viver a intensidade, e as melodias traduzem isso com perfeição por meio de variações de humor e vocais que dão a impressão de realmente implorar pelo desejo, pelo risco. A ponte, marcada por uma pausa singular, se dissolve no pós-refrão, revelando o ponto alto da música:

Is my head in the way?
'Cause my heart can't explain
Where we going now?
Build it up, we tear down
Cared before but, baby
Now I don't give a fuck

E então acaba, com Kelela repetindo “All the way down” e perguntando: “Baby, what you wanna do?”. Depois disso, resta apenas ouvir a música de novo, de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias; quantas vezes você se apaixonar, quantas vezes se derreter e se viciar em alguém que te tira da zona de conforto até fazê-lo acreditar que tudo vale a pena. É uma música inesgotável, daquelas que certamente podem ser carregadas pelo resto da vida.

Ouça a playlist:


Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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