Puterrier - Putaria é Quase Amor



4.8

Houve um tempo, em meados dos anos 2000, em que o funk foi basicamente comandado e conhecido por MCs brancos. Você deve se lembrar do MC Créu e de toda a construção de símbolos em torno do hedonismo e das referências às mulheres-fruta, por exemplo. Hoje, grande parte desses MCs é pouco lembrada, e isso se deve ao fato de eles nunca terem tido força suficiente para dominar os temas centrais do funk naquela época, que era, sobretudo, conduzido por MCs mulheres negras, como Tati Quebra Barraco, MC Karol e Deize Tigrona, entre outras.

Hoje, depois de tantos avanços e rupturas no que se refere à própria criação e expansão do gênero, há que se dizer que o espaço dos MCs é democrático, embora ainda dominado por homens. Este ano, tivemos o excelente Pornografia Auditiva, de Bia Soull, que não apenas busca subverter esse domínio masculino, mas mostra como fazê-lo. É um pouco estranho, por isso, ouvir o que Puterrier tem a dizer em seu aguardado álbum, Putaria é Quase Amor, lançado nesse contexto.

É difícil não comparar esses dois trabalhos, pois são exemplos tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos. Veja bem: Putaria é Quase Amor é focado nas vertentes do funk do Rio de Janeiro, enquanto Pornografia Auditiva se converte mais à cena de São Paulo. Ambos vão além do funk e trazem estilos que circundam o hip hop. Buscam, também, recorrer às suas referências, tanto de estilo quanto de ideal. E, por mais que se aproximem, é justamente nessa aproximação que existe um abismo.

Bia Soull acompanha não só a evolução dos temas do funk paulista no decorrer dos anos, criando respostas a temáticas, mínimas que sejam, que sempre foram expostas por homens, como também tem como base MCs mulheres, como as citadas aqui. Por isso, o que ela tem a dizer em suas rimas está fincado numa colocação temporal muito adequada do funk. Sua narrativa, seu rollout, faz sentido, compete a um período, a uma situação que trata bem desse aspecto formador do funk. A abordagem dos MCs costuma ser diferente da dos DJs justamente nisso, pois, enquanto os DJs querem avançar por estéticas e design de som – a exemplo do atual funk paulista –, os MCs meio que surfam essa onda de avanços, mas o fazem à sua própria maneira, pelo seu domínio lírico.

É por isso que Puterrier soa perdido aqui. Um tanto antiquado. Ele não segue suas bases no funk do Rio de Janeiro, até porque vem de uma tradição masculina, branca e heterossexual que há muito deixou de ter algum peso. Suas rimas passam longe do tom irônico e da forma como os clássicos e os atuais do RJ constroem o funk, pois os clássicos são mulheres, e os atuais, trappers. É um pouco vergonhoso ouvi-lo cantando algumas músicas, rimando com um tom de voz plano, um tipo de flow sem ritmo. Sua composição é, por vezes, sem sentido, não no que se refere à ironia, mas porque as palavras parecem escolhidas aleatoriamente.

Tenta criar uma narrativa, mas músicas como “Calcinha no Show” parecem confusas em termos de acontecimentos. O mesmo vale para “Nora Perfeitinha”. Quase todas as músicas, já em seus títulos, pressupõem acontecimentos, mas dentro, no miolo de cada uma, o que se tem é um amontoado de rimas que nem livres conseguem ser, pois precisam se conectar friamente umas às outras. Quando tenta trazer um tom de discurso crítico ao cenário que ocupa, o faz sem seriedade. “Interlúdio” dá muita vergonha alheia. É um diálogo tão forçado que Puterrier parece não levar a sério o que está sendo dito ali, e, por isso, não produz o efeito que se buscava. Piora quando se nota que, depois do choque de conscientização, ele volta exatamente de onde saiu. É chocante pensar que essa sequência foi pensada... e, pior: executada.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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