B0YG1RL & NOVAGANG - EXIT 2B



7.8

É engraçado pensar que, em pleno 2026, já passada mais da metade da década de 2020, com o mundo ruindo em guerras e o capitalismo prestes a atingir o seu estado tardio, ainda exista algum tipo de música que possa ser inclassificável, como é o disco EXIT 2B, do duo B0YG1RL com NOVAGANG. Em tese, já era para ter existido todo tipo de música, para nada mais ser criado, para nada transbordar o balde de música esquisita que nomes como Los Thuthanaka já haviam acabado de acabar.

Mas a dupla de cantoras-produtoras June Vinette e Angela Rio, de Miami, ainda tem muito a dizer. Suas rimas são cortantes como uma foice em EXIT 2B, uma espécie de canto que não se preocupa com o nível estourado das caixas nem com o próprio design de som que irá adorná-lo. A presença do NOVAGANG aqui já pressupõe essa idealização de som do fim do mundo, com rastros de tendências estéticas recentes da internet, como o digicore que ganhou força no agora nos anos 2020.

Mas EXIT 2B vai além e mescla tudo o que pode. Em “Bél”, por exemplo, parece retrabalhar o beat bolha e o funk com um tom industrial que não se parece com absolutamente nada. Não chega a ser uma apropriação, pois atinge um nível mais roubofônico do que o funk feito aqui no Brasil conseguiria alcançar se não existisse o DJ Ramon Sucesso. É o tipo de adesão e abordagem estética dos signos do gênero – em especial da bruxaria – que não se encontra em lugar algum.

Essa exploração parece ficar ainda mais intensa na sequência “Machine”, com rosnados de cachorros, beat bolha, sirenes e barulhos incalculáveis que formam uma barulheira infernal, tudo de bom que pode existir no mundo. Aqui, até mesmo a forma de proferir as palavras acaba se desconfigurando propositalmente. É chocante como June Vinette e Angela Rio conseguem criar algo assim, com um esforço colossal para soar estranho, ou apenas distinto de tudo. “Love + War” parte de batidas de funk ainda mais secas, mas sua estrutura lírica remete a um padrão pop próximo do hyperpop. Ou seja, apesar do ruído ao fundo, próximo do noise, misturado ao tambor do funk, é, de alguma forma, acessível. Ou apenas compreensível no meio de tudo isso. Porque, no fim, nem dá para dizer exatamente o que é de verdade.

Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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