8.3
Existem poucos nomes, de suas respectivas gerações, que conseguem romper com ideias de classificação que lhes são, em muitos casos, externamente impostas. E fazer isso demanda uma disposição igualmente rara. Artistas com raízes musicais negras, por exemplo, são constantemente colocados em caixas que muitas vezes não correspondem ao trabalho que desempenham em termos práticos. Contrapor-se e romper com essas limitações, no entanto, os torna capazes de dominar quaisquer estilos, gêneros ou, mais profundamente, simplesmente descartar tais classificações.Kelela é uma dessas artistas. Ela é um talento geracional em todos os sentidos da palavra. Seu novo álbum, new avatar, é talvez a sua obra mais inclassificável. Nele, ela viaja por acordes ecoantes de guitarra, exibe o seu melhor trabalho de gravação vocal, explora texturas eletrônicas com uma estética que evoca a vida noturna, o ambiente urbano e a sua devoção artística pela mutação. É, por um lado, o seu disco mais acessível, com instantes dominados pelo canto e pela composição de um R&B que só se diferencia por sua voz marcante, suplicante, emocionada e por vezes dominada pelo desejo, ou pela falta dele, intencionalmente buscada ou bruscamente interrompida.
No centro do álbum está “crystalize”, em que o desapontamento amoroso – aqui como se agrupasse a ruma de frustrações tematizadas no decorrer do álbum – é perturbado pelo esgotamento de uma relação que dispensa ambiguidades: “Hurt me more than you could know”, canta ela, literalizando a dor enquanto um trabalho de cordas dita o ritmo da faixa, que explode em baterias que se distanciam da primeira camada do som e com vocais que dão a impressão de apenas crescer. Crescem, crescem. É um expurgo? Talvez. Kelela sabe muito bem organizar uma lista de faixas, por isso a sequência, “retaliation lullaby”, parece comportar o momento posterior a essa erupção emocional. A faixa diminui toda a intensidade testada anteriormente e opta pela tranquilidade, com uma espécie de gravação de campo da chuva, com trovoadas sustentando o tom e impedindo que uma nova explosão ocorra.
A faixa dialoga com “Idea 1”, que introduz perfeitamente os caminhos formados por guitarras rastejantes e instantes que flertam com o ambient presente no álbum, que é um híbrido de quase tudo o que Kelela já fez, tanto que, após a metade, a incidência de sons voltados à eletrônica que guia a carreira da artista pelo experimentalismo de gênero surge com mais intensidade.
É o caso das excelentes “don't piss me off” e “the bridge”, que partem de batidas aceleradas que remetem tanto a Take Me Apart (2017) quanto a Raven (2023), com a diferença de conterem, nelas, novamente, os melhores vocais de Kelela – os vocais angelicais de PinkPantheress merecem ainda mais créditos. Ela canta de forma que quebra tons quase trinados e melismáticos, transformando eles em um só. Por isso, acaba optando constantemente por uma altura de voz que se encaixa na tonalidade downtempo do álbum.
Essa troca técnica pode ser bem vista também em “new life forms”, com Fousheé, um pop perfeito, um tipo de R&B cuja classe está na forma como os vocais se comportam diante das batidas, que aderem a uma estrutura muito conhecida do que se convencionou a chamar de R&B alternativo. O instante em que Fousheé surge é como se a faixa pudesse ser assumida por SZA. Mais do que uma surpreendente passagem de Kelela pelos planos comuns do gênero, esse momento expõe a força que ela tem em dispor de uma contradição nas classificações, vez que o gênero testado aqui mais a aproxima do mainstream do que qualquer outra coisa. É um exemplo didático do hibridismo, da disposição de Kelela em desapegar, inclusive, das formas que ela mesma já adotou e explorou no passado. É uma das melhores coisas que ela já fez, e mesmo assim está longe de representar todo o seu talento.