
9.4
A ideia de Isto dando Samba é bem simples: testar os limites do samba, fazê-lo dentro do espaço da música experimental, e através de seus instrumentos facilmente reconhecíveis. O que Ajítenà Marco Scarassatti faz aqui, porém, beira o desconhecido. É um disco de samba, ao mesmo tempo pouco se aproxima – não em sentido de possibilidades, mas do que se tem de adequação e classificação hoje – de um. Sua linguagem está aqui, amplificada, por vezes dispersa, mas ainda presente.
Trata-se, na verdade, do samba como um ponto de partida. Onde se chega e como são outros quinhentos. Passa longe de abstrações, por sorte, pois nitidamente deixa explícito seu avanço por caminhos mais densos em termos de arranjos e usos vocais. “Isto dando Samba II”, por exemplo, se constrói pelo lirismo, a letra, a partir de um meio já estabelecido de cantoria do samba, se aproxima de alguma tradição pelas cordas. Dá pra imaginar, em velocidade e tom mais abrasivo, um aceno a Dorival Caymmi, se Canções Praieiras se reconfigurasse sem o tempo dizer para onde devesse ir. A faixa cria repiques vocais, gera contrastes que parecem mensagens de código morse picotadas, finalizadas com um tempero de glitches.
A técnica que ajuda a fazer com que essa linha do tempo do samba faça sentido é a áudio-partitura. “Enviei uma áudio-partitura, composta a partir de uma gravação que fiz no violão, para instrumentistas, cantores e cantoras ligados ou não ao samba, mas que utilizassem instrumentos relacionados ao gênero”, conta o artista. O resultado, que sofre variações conforme diferentes nomes vão trazendo suas espécies de versões da ideia compartilhada por Ajítenà Marco Scarassatti, cria uma dúzia de interpretações que parecem avulsas, mas são conectadas justamente pela estrutura do samba.
“Isto Dando Samba III” abusa da percussão criada pela voz, uma espécie de polirritmia com cordas e cavaquinho, com foco em batidas e toques fixados na intenção de formar tudo por entre uma musicalidade orgânica. Noutros momentos, como em “Isto Dando Samba IV”, é possível notar uma maior adesão de sons de fácil descrição do samba. Como se, aqui, os instrumentais fossem visíveis aos olhos nus, se é que isso faz sentido, disfarçados no entanto pelos vocais de Juçara Marçal, que adentram o ritmo da cuíca, do pandeiro e do cavaquinho, especialmente nos segundos finais.
A sequência, “Isto Dando Samba V” parece seguir com o foco nas cordas. Todavia, logo é tomada por uma nota sustentada num único tom. Sua composição eletrônica não esconde sua investida no drone, cheio de texturas ásperas, colagem de som, uma ambientação tropical e que de repente é assumida pelo canto da cuíca. Tempos depois o drone retorna, e os instrumentos se tornam mais intensos à medida que avança pela duração que, assim como todas as faixas, ultrapassam os oito minutos. Dá a impressão de que avançamos pelo ambiente gerado pela faixa e suas ambiências projetadas por estes elementos, adornados por sopros e fragmentos vocais. É um dos instantes mais imersivos de todo o álbum.
O grande destaque é a abertura “Isto dando Samba I”. A música, que dita o tom do álbum, é uma introdução excelente ao aspecto estético desenvolvido por todos os artistas envolvidos. É este aspecto, fomentado pela própria ideia discursiva de trazer ao samba uma perspectiva experimental que não houvesse sido criada e gerida desta forma, através das técnicas usadas aqui, que torna Isto dando Samba um grandioso e escaldante forno de algumas das ideias mais difusas da música que é brasileira e experimental na atualidade, sem exageros. As texturas, que parecem ir a territórios próximos da musique concrète enquanto Juçara Marçal atenua seu canto ritualístico, gera uma esteira cujos demais elementos vão se amontoando até, próximo ao fim, eclodirem em uníssono. Não há nada parecido com isto.