
8.4
Assim como Blurrr, de Joanne Robertson, este álbum respira e inspira ares de Arthur Russell ao longo de sua majestosa duração. Pode parecer estranho afirmar isso, visto que aqui o ritmo é devidamente mais agitado, com um cerne posto sobre a discotecagem folk, mas ainda há momentos em que o folk emerge por meio de vocais submersos por cordas cuja precisão remonta a um som que já não existe mais, que se desintegrou anos atrás, mas que de alguma forma continua ecoando por aí, ou por aqui.Acontece que MY SKYSCRAPER agrupa quarenta anos de trabalhos de Steven Hall, artista por trás do projeto Nirosta Steel, incluindo faixas que demonstram sua proximidade com Arthur Russell, já que ambos foram grandes amigos e, após a morte de Russell, Hall criou o Arthur's Landing, em que ao lado de outros músicos buscava promover a arte de seu amigo. Tal proximidade é evidente em momentos como “FRESH FEELING” e “SPECIAL WEAKNESS”, em que acordes de violão são acompanhados de vocais crus, compilando momentos melódicos que soam gélidos, mas ao mesmo tempo, dançantes.
A longa duração das duas faixas faz com que Steel altere o canto com palavras recitadas em tons por vezes irregulares, que quase desafinam diante da brutalidade e da secura com que ele toca. Esses instantes instrumentais, que ponderam um passo punk-folk, acabam soando como extensões dos momentos voltados às pistas de dança, como a abertura “ENGLISH PARTY”, escrita para Madonna nos anos 80 e que aqui é cantada por entre uma atmosfera dub e gravações de fundo quase ininteligíveis, que instigam uma organicidade, uma intenção puramente livre de forma.
É quase o oposto de “BOSS TRIX (BENNY'S SONG)”, uma deliciosa peça dedicada ao ex-namorado taiwanês de Steel, dominada por um ritmo que contém alguns dos arranjos de cordas com pegada funky mais doces da história; uma masterização empoeirada e uma energia que oscila entre vocais abafados, uma série de floreios de percussão que mergulha em estruturas de deep house. Quando ocorre a pausa, construída como ponte, é o momento em que a frente de sopro reconfigura o ritmo em torno de uma amplitude instrumental que, nesse estágio, remete à dance music da transição entre as décadas de 80 e 90, com vocais femininos criando um contraste que é sofisticado e etéreo, mas também denso e profundamente caloroso, o que acaba refletindo, com propriedade, a relação de Hall com seu antigo amor.
A energia no pico segue até a sequência disco formada por “LOST IN MUSIC” e “FIRST LOVE (DISCO MOONBEAN MIX)”, desta vez com acordes de guitarra mais aparentes e gravações ainda mais analógicas. A este ponto, MY SKYSCRAPER consegue comportar não apenas as diferentes intenções estéticas da diversidade que atingem em cheio o trabalho de Steel, mas também a maneira como esses diferentes sons são organizados dentro do álbum.
Seria quase um trabalho galerista, sobretudo pela maneira como a curadoria dessas faixas se dá, mas o álbum é intuitivo em sua intenção de incorporar um cartão-postal cheio de vida (da vida do seu artista mesmo), uma riqueza musical e narrativa – a persuasão das pistas como sua passagem pela era disco e a referência queer posta em seus temas – que dificilmente passaria pelo mesmo escopo daquele encontrado aqui.
É quase o oposto de “BOSS TRIX (BENNY'S SONG)”, uma deliciosa peça dedicada ao ex-namorado taiwanês de Steel, dominada por um ritmo que contém alguns dos arranjos de cordas com pegada funky mais doces da história; uma masterização empoeirada e uma energia que oscila entre vocais abafados, uma série de floreios de percussão que mergulha em estruturas de deep house. Quando ocorre a pausa, construída como ponte, é o momento em que a frente de sopro reconfigura o ritmo em torno de uma amplitude instrumental que, nesse estágio, remete à dance music da transição entre as décadas de 80 e 90, com vocais femininos criando um contraste que é sofisticado e etéreo, mas também denso e profundamente caloroso, o que acaba refletindo, com propriedade, a relação de Hall com seu antigo amor.
A energia no pico segue até a sequência disco formada por “LOST IN MUSIC” e “FIRST LOVE (DISCO MOONBEAN MIX)”, desta vez com acordes de guitarra mais aparentes e gravações ainda mais analógicas. A este ponto, MY SKYSCRAPER consegue comportar não apenas as diferentes intenções estéticas da diversidade que atingem em cheio o trabalho de Steel, mas também a maneira como esses diferentes sons são organizados dentro do álbum.
Seria quase um trabalho galerista, sobretudo pela maneira como a curadoria dessas faixas se dá, mas o álbum é intuitivo em sua intenção de incorporar um cartão-postal cheio de vida (da vida do seu artista mesmo), uma riqueza musical e narrativa – a persuasão das pistas como sua passagem pela era disco e a referência queer posta em seus temas – que dificilmente passaria pelo mesmo escopo daquele encontrado aqui.