Charli xcx - Music, Fashion, Film



7.4

Charli xcx já disse que seus álbuns são feitos intencionalmente para serem diferentes uns dos outros. Essa intenção exige um esforço a mais na exploração de estéticas, formas e estruturas, bem como de maneiras distintas de transmitir seus temas. E é inegável que ela sabe fazer isso com maestria, ao mesmo tempo em que mantém seu apelo pop despojado, profundamente característico de projetos como how i'm feeling now (2020) e BRAT (2024), e seu talento para criar refrões excelentes. Ela sempre consegue se reinventar de alguma forma.

Music, Fashion, Film é o seu trabalho mais óbvio no que diz respeito à ideia de criar algo diferente apenas para ser… diferente. O lado bom é que, por mais que parecesse presa ao BRAT, ela finalmente deixou para trás todo o rollout que marcou o lançamento do álbum, e o fez, para muitos, de maneira radical. A primeira música lançada nesta nova era, “Rock Music”, sequer passa dos dois minutos de duração, e um trecho específico da letra chamou atenção: “I think the dance floor is dead”, canta ela. Visto como uma declaração, o verso repercutiu e levantou questionamentos até que legítimos. No fim, porém, não passou de um quase bait.

Mas era certeza de que o álbum começaria aí. Vai ser rock? De que vertente? As músicas vão ser curtas assim? Charli vai cantar sobre seus temas com a simplicidade de sempre ou apenas traçar pequenas provocações e expor letras que independem do que ela realmente quer dizer? Bom, ela faz tudo isso. E seu modo de cantar agora se apoia em palavras quase faladas. Palavras estranhas, sorteadas ou apenas usadas para acentuar a diferença em relação às palavras soltas e repetitivas de seus álbuns anteriores.

Mas o álbum não responde exatamente a todas essas colocações, pois o que está em jogo aqui é um certo ecletismo que há muito permeia a música pop, como se o uso extensivo de guitarras bastasse para transformar Charli no oposto do que ela sempre foi, deslocando ela de uma popista a rockista insistente. Felizmente, ela tem plena consciência do que está fazendo. Por isso há momentos que, por mais diferentes que sejam de tudo o que ela já fez antes, remetem simultaneamente ao que há de melhor em seus trabalhos anteriores.

“SS26”, por exemplo, parece esconder seu gancho pesado por trás de vocais calmos, criando um contraste que vimos em peso no álbum CRASH (2022). A faixa tem ainda uma batida que dá a impressão de marcar o tempo conforme vai, aos poucos, se estruturando, antes de explodir em acordes mais densos de guitarra no pré-refrão. Também é marcada por uma repetição lírica que fez de BRAT, por sua estética eletrônica e viés clubber, um dos pontos altos da carreira de Charli. “2007” é outro destaque por recorrer ao passado da artista. Não é de hoje que ela coloca números e anos, como em “1999” e “2099”, com Troye Sivan, nos títulos de suas músicas e constrói sentidos novos a partir deles.

O resultado da vez é muito divertido, cheio de arranhões e de uma ambiência áspera, suja. De um jeito diferente é claro de tudo o que hoje aposta nessa mesma proposta de pop “sujo”. O mais engraçado é que Charli aproxima muito “2007” de “Yeah”, mesmo que a segunda seja menos inspirada e mais direta em sua intenção de soar barulhenta. Mas o grande acerto mesmo é “No One Lasts Forever”, que conta com um longo trecho de narração do diretor David Cronenberg. Há muito Charli faz referência a ele, sendo CRASH a mais nítida dessas referências.

A música, além da capa, que, diga-se de passagem, é nocivamente pretensiosa, consegue sustentar o conceito que Charli tenta trazer para o álbum, mesmo recorrendo à forma épica com que costuma encerrar seus discos. É um pouco “Track 10”, um pouco “visions” e um pouco “365”: imersiva e pronta para encerrar em grande estilo, por mais apático que Music, Fashion, Film seja em seus piores momentos (“I'm Afraid”, “Persona” e “Magic Metal Montana”). Ao menos, ela ainda consegue fazer algo diferente ser, de fato, diferente.
Matheus José

Graduando em Letras, já passou por publicações nos sites Jornal 140, VIUU, VHS CUT, CriCríticos, Suco de Mangá, BoysLove Hub, Café com Kimchi, POPtivo e Aquele Tuim.

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