
8.0
O fato é que poucas pessoas realmente esperavam que o retorno da Arca aos álbuns de estúdio seria um afastamento de tudo que ela vinha fazendo desde o lançamento dos cinco kicks, entre 2020 e 2021. Mas foi com o mix AIRDOLL, lançado ainda em julho, que ela mostrou seu retorno a um d-club (deconstructed club) verdadeiramente experimental e menos formulaico que seus outros lançamentos recentes. A diferença entre esse mix lançado pela NTS e XXXXX é que o primeiro soa como uma continuidade, e o segundo como disrupção, com relação à própria carreira da Arca.A começar que, mesmo sendo notavelmente um álbum alinhado ao d-club que a Arca costumava fazer desde seu álbum Mutant (2015), não é exatamente nas mesmas influências dos ritmos de EDM inglesa que ela vai encontrar seu foco para esse novo lançamento. Evidentemente temos ainda uma forte influência do wonky, e na música mais popular de XXXXX até o presente momento, "Fxck", tem características predominantes do UK Bass, assim como "Taconeando". Contudo, é na formalidade e nos aspectos igualmente geométricos e assimétricos do IDM que ela vai encontrar uma nova forma estética.
Isso faz com que cada segundo de XXXXX seja novo para qualquer ouvinte da artista, mesmo os que já zeraram o catálogo completo dela. É a primeira vez que ela consegue articular muito bem essa possibilidade de fazer uma música dançante sem perder o aspecto mais etéreo que ela tinha em projetos como o fantástico Entrañas (2016). Não é de se surpreender, portanto, que mesmo que seja um álbum menos acessível do que os três primeiros kicks, esteja tendo uma recepção bastante favorável e consideravelmente grande, para um disco praticamente todo instrumental. É algo que chama atenção e até mesmo consegue articular bem esse lado mais pop de um lado bem mais complexo.
Voltando à essa relação geométrica e paradoxalmente assimétrica do IDM, XXXXX consegue deixar isso muito evidente. Esse é um desses álbuns que, felizmente, só fazem sentido se escutados do início ao fim, ou, no mínimo, se escutadas várias músicas seguidas umas das outras — tentar ouvir apenas algumas músicas individualmente vai soar uma experiência vazia, incompleta. E isso é fruto da própria estética inicial. O IDM exige essa confusão inicial que vai se ajustando conforme vai sendo construído, isso é individual, as músicas vão sendo estruturadas conforme se escuta, porém é principalmente no conjunto da obra como um todo.
Ao longo do álbum ela vai experimentando com todos os tipos de elementos da música eletrônica, as músicas vão variando entre sintetizadores agudos e graves, glitches e MIDIs de teclados dos mais variados. Tudo isso cria formas, e é interessante como elementos específicos de músicas no início são reutilizados às vezes em músicas posteriores — um exemplo disso é o uso de sintetizadores mais atmosféricos em "Heart", que retornam em "Grip". Essas relações dinâmicas entre as faixas são essenciais, não para uma possível “coesão”, mas porque tornam inevitável que a experiência seja pensada como um todo, sem individualizar.
Outro aspecto muito importante em XXXXX, que está alinhado à toda carreira de Arca, é a liberdade criativa que é notável na produção em especial. Ela não se prende à ideia de consistência, cada faixa possui variedade na intensidade dos elementos, na velocidade das músicas e músicas mais acessíveis estão próximas à músicas complexas e bem mais difíceis de serem escutadas. "Syncope", minha música favorita do disco, é uma experiência completamente diferente de todo o restante e brinca com a assimetria de uma maneira fantástica, toda variação, troca de beat, mudança de tempo, incorporação de elemento… na música é incômoda e isso é uma característica fundamental dos melhores projetos da Arca até hoje.
Diante de todo o exposto, o único fator que diminui o álbum como o todo é a baixa exploração de texturas. Apenas essa característica da produção parece uniforme; tem uma certa limpeza nesses elementos, que fazem todos eles pertencerem a uma mesma camada — claro que nos momentos de glitch isso se torna menos verdadeiro, mas também não é algo radical. É impossível dizer que não tem intenção verdadeira por trás disso, pois, de certa forma, combina com a atmosfera do disco, contudo, é um dos pontos mais interessantes da música eletrônica inevitavelmente. A relação da música eletrônica com texturas é corpórea, é sentir a música em toda sua totalidade, uma experiência sensorial completa. E isso é evidente também para Arca e para qualquer ouvinte do Entrañas ou do @@@@@ (2020) e é algo que não pode ser deixado de lado, de forma alguma.
No fim, esse é mais um trabalho da Arca que certamente merece ser escutado, comentado e que deixa qualquer pessoa muito feliz que esteja atingindo um certo mainstream. É criativo, interessante e, sobretudo, muito bem feito em todo aspecto possível e essencial para esse estilo de música. Bonito demais ver uma artista com mais de 10 anos de atividade conseguindo explorar tanto da sua arte até hoje, com coisas novas, reinvenções e tamanha identidade.