Tinashe - Popstar



8.1

Enquanto eu reouvia a discografia de Tinashe para escolher as suas dez melhores músicas, que você confere o resultado ao clicar neste link, percebi um padrão: todos os seus álbuns de estúdio têm pelo menos uma ou duas faixas que atingem em cheio o estado natural do pop perfeito, e mesmo o seu álbum menos querido pela crítica, Joyride (2018), apresenta bops inegáveis.

Após sair da RCA em 2019 e passar a lançar coisas num plano mais independente, Tinashe foi aos poucos refinando essa quase intenção e lançando cada vez mais faixas de pop perfeito, essencialmente pela liberdade criativa maior e por fazer desta liberdade um ponto de cruzamento entre manter a qualidade (o que podem chamar de coesão) e apresentar formas novas de dirigir estes pops (experimentalismo de gênero).

Por isso, seu novo álbum, Popstar, soa como uma culminância de tudo isso, e mais: é o seu melhor álbum, sobretudo por fazer daquele padrão uma regra, ou seja, todas as quatorze músicas regulares aqui – com exceção dos interlúdios – correspondem a qualquer métrica que busque definir um pop perfeito na atualidade.

Desde BB/ANG3L, Tinashe vem brincando de fazer cruzamentos inusitados de pop com elementos de música eletrônica que, em suas mãos, se tornam pop também, como a sua reimaginação do future garage e do 2-step em torno de um componente estilístico moldado por Burial em “Gravity”, que dá o tom de parte do que ela faz em peças como “Flashbacks”, sua ida definitiva ao universo de FKA Twigs.

A música soa como algo perdido entre CAPRISONGS (2022) e EUSEXUA (2025), com um arranjo de piano choroso, vocais distorcidos e um jeito de cantar que, em alguns instantes, genuinamente é possível ver Twigs interpretando a música. Esse é outro poder incrível de Tinashe: ser uma exímia imitadora, capaz de imitar tão bem a ponto de fazer com que o objeto imitado se dissipe por completo – é um efeito parecido com “Bet”, em que ela parece tomar o corpo de Beyoncé em algumas notas da música.

Esse jogo de imitação está longe de ser um demérito; pelo contrário. Eu canso de dizer e de ver por aí que a música não surge do zero, e muito por isso essas similaridades, que percorrem a carreira de Tinashe, mesmo quando a comparam injustamente – ou fazem da comparação um meio de tirar autenticidade –, são parte do pacote que ela apresenta como uma artista pop.

É, porém, somente agora que sua ousadia pode ser percebida como um meio próprio de criação. Por isso que Popstar recorre a uma visão muito pessoal do significado do termo, de ser uma popstar, assim como JADE outrora explorou a fama em THAT'S SHOWBIZ BABY! (2025) e Charli xcx Music, Fashion, Film, Tinashe apela para uma autoconsciência que amarra passado e presente de sua criação e autoria.

Nos momentos mais inspirados, como a sequência inicial imaculada de “Sunglasses”, que mistura elementos do que podemos julgar como um espécime de musique concrète poptizado ao máximo, “Too Easy”, o k-pop mais bem texturizado da década de 2020 e o apogeu technoico de “Melatonin”, Popstar também acaba brincando com a mimesis de estilos de música que passam longe do escopo comum de divas pop – que Tinashe ainda faz parte.

Outros destaques incluem as caixas em velocidade turbinada de “Empty Stadium”, cuja atmosfera é uma das coisas mais surpreendentes a ser apreciada na obra da artista, os acordes de guitarra sensuais e a construção lírica viciante de “I'd Rather Be Alone” e as batidas volumosas e inconfundíveis de “Nobody Wanna Dance Anymore”, que interpola “Chillin”, de Lady Gaga e Wale, construindo outro ponto crucial na culminância de Tinashe e na importância da sedimentação do pop perfeito de hoje: a nostalgia.

Devido a essa testagem incrível de pontos, Popstar em momento algum decai no conceito burro de coesão ou seja lá o que isso queira dizer. A parte final, com a faixa que dá nome ao álbum, “Popstar”, além de “Brainrot” e “Cloud 9”, testa limites diferentes de batidas densas e vocais que encontramos em todo o álbum, por isso é tão boa quanto. É difícil encontrar, seja na discografia de Tinashe ou no pop mesmo, um disco que condense tantas coisas assim, o faça com certa pretensão e atinja seus objetivos. É a música mais viciante do século.
Matheus José

Graduando em Letras, escreve sobre música há uma década. Editor do remixe, também colabora com diferentes publicações sobre cultura e música.

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