
8.5
Na capa de Limen (2022), disco em parceria com KMRU, há fogo. Destruição. Seu som, igualmente: uma vastidão perturbadora de ambient, ruído branco e um lembrete que nós não somos ninguém ante a natureza, e ainda assim a tocamos, violamos. O novo álbum de Aho Ssan (Niamké Désiré), The Sun Turned Black, trata de um sentimento parecido de devastação. Neste caso, uma devastação geográfica, espacial, marcada pelo deslocamento, pela diáspora, mas também pela imprecisão, pelos desvios de forma e de padrões narrativos.
O disco emerge, por isso, de um turbilhão de sinapses instrumentais que recorrem a batidas agudas e ruidosas, divididas entre instantes de ambient e de eletrônica mais convencional, com passagens pelo IDM e pelo deconstructed club. Mas é justamente na mistura e na maneira como emprega densidade a esses estilos que o álbum atinge uma individualidade estética voraz.
Essa investida na diferenciação faz parte de sua própria narrativa. Os gêneros citados estão, muitas vezes, presos a características definidas por classificações ocidentais, já que tiveram ali seu berço. Désiré concebe The Sun Turned Black como parte de uma mudança de perspectiva musical formalizada durante uma viagem a Gana, que confirmou, para ele, a necessidade de “pensar menos sobre formas concretas e abraçar a fisicalidade crua e transformadora do próprio som”. O álbum torna essa ideia evidente em momentos como “100 Suns Pt. II”, em que texturas ásperas, ruídos e melodias quase dormentes introduzem um crescendo de tons metálicos e luminosos – semelhantes a lasers – que se chocam entre si em algo que soa como dedilhados liquefeitos.
É como se Désiré encontrasse, primeiro na lentidão e depois na explosão cacofônica, uma forma de tangenciar o próprio som. Por isso, surgem estruturas percussivas fomentadas por sintetizadores digitais que não se apuram pela literalidade sonora, mas se desfazem em torno da atmosfera, encostando inclusive na ruminação de infinitos microsons que alimentam um desejo que, a essa altura, já passeia por fragmentos de electroacoustic.
Ainda assim, permanece distante de qualquer espaço de classificação comum. É instável e desordeiro. Um confronto de sentimentos que o reconhecimento deixa entre o lugar em que se vive e aquilo que se entende como lar, duas perspectivas que aqui carregam significados completamente distintos. Além de tátil, The Sun Turned Black é extremamente preciso. E quando o conjunto de cordas invade a cena em “The Children of Noise”, parceria com ASIA, para em seguida culminar em um estalo imprevisível e carregado de tensão, é nesse instante que se percebe exatamente onde Désiré quer chegar.
Ainda assim, permanece distante de qualquer espaço de classificação comum. É instável e desordeiro. Um confronto de sentimentos que o reconhecimento deixa entre o lugar em que se vive e aquilo que se entende como lar, duas perspectivas que aqui carregam significados completamente distintos. Além de tátil, The Sun Turned Black é extremamente preciso. E quando o conjunto de cordas invade a cena em “The Children of Noise”, parceria com ASIA, para em seguida culminar em um estalo imprevisível e carregado de tensão, é nesse instante que se percebe exatamente onde Désiré quer chegar.